Microplásticos nos corações: achado alarmante ou mera coincidência?
Uma investigação conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e do Instituto do Coração (InCor) identificou, pela primeira vez, a presença de microplásticos em amostras de tecido cardíaco de 15 vítimas fatais de infarto agudo do miocárdio. Publicado na revista Cardiovascular Toxicology nesta semana, o estudo analisou corações de pacientes com idades entre 40 e 75 anos, residentes em áreas urbanas com alta poluição por plásticos. Enquanto a descoberta reforça a onipresença dos microplásticos no organismo humano — já detectados em sangue, pulmões e até placenta —, ela não estabelece, por si só, uma relação de causa e efeito entre a exposição a esses fragmentos e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Limites do estudo: correlação ≠ causalidade
Os autores do estudo, liderados pela cardiologista Dra. Ana Paula Silva, destacam que o delineamento observacional da pesquisa impede qualquer inferência sobre a contribuição dos microplásticos para o evento cardíaco. “Encontramos partículas de polietileno e poliestireno em 80% das amostras, mas isso pode refletir apenas a exposição ambiental comum, não um fator desencadeante”, afirmou a pesquisadora. Especialistas independentes, como o toxicologista Dr. Marcos Oliveira da Fiocruz, reforçam que fatores como dieta rica em alimentos ultraprocessados, sedentarismo e tabagismo — todos associados à presença de microplásticos no organismo — podem atuar como variáveis de confundimento.
Contexto global: microplásticos e saúde cardiovascular
Embora o estudo brasileiro seja pioneiro em analisar tecidos cardíacos, pesquisas internacionais já haviam demonstrado correlações entre a poluição por microplásticos e inflamação sistêmica, dislipidemia e até hipertensão. Um relatório da World Health Organization (WHO) de 2024, por exemplo, estimou que a ingestão média anual de microplásticos por um adulto é de 5 gramas — equivalente ao peso de um cartão de crédito. No entanto, a ausência de modelos animais ou ensaios clínicos randomizados limita a capacidade de estabelecer nexo causal, segundo o epidemiologista Dr. Luís Fernando Correia.
Implicações e próximos passos
Apesar das limitações, o estudo reforça a necessidade de monitoramento contínuo da exposição humana a microplásticos, especialmente em populações vulneráveis, como idosos e indivíduos com doenças prévias. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) emitiu nota nesta semana recomendando cautela na interpretação dos dados, mas não descartou a possibilidade de revisão de diretrizes caso novos estudos confirmem um elo causal. “Ainda não há evidências suficientes para classificar os microplásticos como um novo fator de risco cardiovascular, mas tampouco podemos ignorar os sinais”, declarou o presidente da SBC, Dr. Carlos Eduardo Rochitte.




