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Saúde

Mães brasileiras lideram busca por cannabis medicinal: sono, dor e ansiedade no centro do debate

Redação
16 de maio de 2026 às 16:46
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Mães brasileiras lideram busca por cannabis medicinal: sono, dor e ansiedade no centro do debate

© Divulgação/Anvisa

A cannabis medicinal deixou de ser um tabu no Brasil e ganhou espaço entre as mães brasileiras como alternativa terapêutica para condições que impactam diretamente a qualidade de vida

 

Segundo dados do aplicativo Blis, plataforma especializada no acesso a tratamentos com fitocanabinoides, mulheres são maioria — 53% dos 7.092 pacientes analisados — e buscam na planta alívio para dores crônicas, ansiedade e, sobretudo, distúrbios do sono. Os números, coletados em 989 municípios de todas as 27 unidades da federação, pintam um retrato de uma sociedade em transformação, onde a saúde mental e o bem-estar físico tornaram-se prioridades não negociáveis.

O sono como principal alvo: quando a noite se torna um fardo

Entre as queixas registradas, os problemas relacionados ao sono lideram o ranking, correspondendo a 28,9% das demandas. Dores crônicas — como fibromialgia, artrite e enxaquecas — aparecem em segundo lugar (16,3%), seguidas por quadros de ansiedade (14,9%). Juntas, essas três condições somam 60,1% da procura por cannabis medicinal, segundo a plataforma. Um dado que reflete não apenas a eficácia percebida da substância, mas também a escassez de soluções convencionais capazes de oferecer alívio duradouro para milhões de brasileiras.

Os responsáveis pela Blis esclarecem, no entanto, que os resultados são estritamente descritivos e não permitem inferir conclusões definitivas sobre a eficácia clínica da cannabis. Ainda assim, a crescente adesão ao tratamento — que não raro combina fitocanabinoides com medicamentos alopáticos — sinaliza uma mudança de paradigma na forma como a sociedade encara doenças antes negligenciadas ou tratadas com fármacos de alto potencial viciante.

De 3% para 11% em uma década: o boom do consumo feminino

Os números da cannabis medicinal entre mulheres com 14 anos ou mais no Brasil impressionam. Em 2012, apenas três em cada cem adultas haviam consumido a substância. Em 2023, a proporção saltou para 11 a cada cem, segundo levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Um crescimento de 267% em pouco mais de uma década. Essa explosão reflete não apenas uma maior abertura cultural, mas também a busca por alternativas diante da ineficácia ou dos efeitos colaterais de tratamentos tradicionais.

Entre as usuárias, 50,6% afirmam nunca terem tido contato prévio com a planta antes de iniciar o tratamento. A faixa etária mais representativa é a de 45 a 64 anos (55,4%), seguida pelas idosas com mais de 65 anos (16,3%). Um perfil que desafia o estereótipo de que o uso medicinal de cannabis seria restrito a públicos mais jovens ou marginais. Pelo contrário: são mulheres em plena maturidade, muitas vezes responsáveis por lares e carreiras, que encontram na planta uma tábua de salvação para lidar com o cansaço acumulado, a dor persistente e a ansiedade que as consome.

Sudeste concentra a maior demanda, mas o uso se espalha pelo país

Geograficamente, o Sudeste lidera as estatísticas, abrigando 61,6% dos registros de cannabis medicinal no Brasil. O Sul vem em seguida, com 19,7% dos casos. Essa distribuição, no entanto, não deve ser interpretada como um reflexo exclusivo da concentração populacional ou de acesso a serviços de saúde. Especialistas apontam que a maior conscientização sobre os direitos e a regulamentação — ainda que incipiente — pode explicar parte desse desequilíbrio. Afinal, a legalidade do tratamento depende de receita médica e do cumprimento de normas da Anvisa, um processo que ainda enfrenta barreiras burocráticas e culturais em várias regiões.

O perfil socioeconômico das pacientes não deixa dúvidas: 79,9% têm ocupação profissional remunerada, e 75,1% praticam atividades físicas regularmente. Um dado que contradiz o senso comum de que o uso de cannabis medicinal estaria associado a uma população de baixa renda ou desempregada. Na realidade, são mulheres economicamente ativas, muitas vezes com acesso a planos de saúde privados, que optam pela cannabis como última alternativa após esgotar outras possibilidades terapêuticas.

Um mercado em expansão e a urgência por políticas públicas

Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, o Brasil já conta com cerca de 873 mil pacientes ativos no uso de fitocanabinoides. Um mercado que, embora ainda embrionário, movimenta cifras bilionárias e atrai investimentos de grandes laboratórios farmacêuticos. A plataforma Blis afirma que os dados coletados têm como objetivo subsidiar debates sobre a formulação de políticas públicas mais inclusivas e eficientes para o segmento.

A regulamentação vigente, no entanto, ainda é um entrave. Para ter acesso legal à cannabis medicinal, os pacientes dependem de receita médica e do cumprimento das normas da Anvisa, um processo que pode ser lento e oneroso. Enquanto a discussão avança em câmaras legislativas e tribunais, milhões de brasileiras seguem apostando na planta como uma esperança concreta de recuperação e melhora na qualidade de vida.

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