Desde o choro exagerado até as lamentações intermináveis, a língua portuguesa ganha um novo termo para designar quem se faz de vítima com excesso de dramaticidade: ‘mi-mi-mi’
A expressão, já incorporada ao cotidiano de milhões de brasileiros, agora enfrenta o crivo da Academia Brasileira de Letras (ABL) em seu processo de oficialização no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) — um registro que funciona como um retrato do sistema ortográfico e léxico do país.
O que é o Volp e como ele funciona?
Contrariando a crença popular, o Volp não é um dicionário, mas um documento técnico que sistematiza os termos reconhecidos oficialmente pela ABL. Diferentemente de obras como o Dicionário Aurélio ou o Houaiss, que interpretam significados, o Volp lista palavras conforme sua grafia e classificação gramatical, sem definições detalhadas.
Para ingressar nessa lista, um termo precisa percorrer um caminho criterioso. A primeira etapa é o Observatório Lexical, um levantamento contínuo da equipe de lexicografia da ABL, que identifica expressões já disseminadas em textos escritos em norma-padrão do Brasil. Segundo a Academia, o critério central é o uso coletivizado — ou seja, a palavra deve ter ultrapassado os limites de um grupo restrito, seja uma gíria regional ou um jargão profissional, para ser considerada.
Do nascimento à oficialização: o tempo de espera de um novo vocábulo
O processo pode ser ágil ou lento, dependendo da trajetória da palavra. Casos como ‘covid-19’, registrado rapidamente devido à sua relevância global durante a pandemia, contrastam com termos como ‘gentrificação’, que, embora circulasse desde a década de 1970, só foi incorporado ao Volp em 2022 — quando o fenômeno que nomeia se tornou onipresente no debate urbano brasileiro.
A ABL esclarece que não há um prazo fixo para a decisão. O ritmo é ditado pela complexidade de cada termo: é necessário analisar sua origem, formação, classificação gramatical, grau de circulação, diversidade de fontes e alcance geográfico. ‘Marmitório’, ‘parditude’ e ‘disania’ também estão na fila de espera, aguardando a conclusão dessa análise minuciosa.
Por que algumas palavras demoram décadas para serem registradas?
A demora não se deve apenas à burocracia, mas à necessidade de confirmar que o termo transcendeu modismos passageiros. A lexicógrafa da ABL, entrevistada pela CNN Brasil, destaca que o Volp prioriza palavras que refletem mudanças culturais profundas, não apenas tendências efêmeras. Por isso, expressões como ‘mi-mi-mi’ — já amplamente usadas em contextos informais e formais — têm maiores chances de serem aprovadas.
O registro no Volp não impede que a palavra seja utilizada antes de sua oficialização, mas confere-lhe status de legitimidade perante instituições, mídia e academia. É um passo crucial para que termos como este se tornem parte do patrimônio linguístico brasileiro, consolidando-se não apenas no falar, mas também na escrita padronizada.
O que muda com a inclusão no Volp?
A incorporação ao Volp não altera a essência da palavra, mas sim sua validade ortográfica. Instituições de ensino, veículos de comunicação e órgãos públicos passam a reconhecê-la como parte integrante da norma culta, ainda que seu uso continue predominantemente coloquial. Para muitos linguistas, trata-se de uma vitória da língua viva, que se adapta aos costumes sem perder sua estrutura.
No entanto, a ABL ressalta que o Volp não é estático. Novas palavras podem ser adicionadas ou removidas conforme a evolução do uso, reforçando o caráter dinâmico da língua portuguesa — um reflexo das transformações sociais, tecnológicas e culturais que moldam a comunicação no Brasil.




