O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, não assinou três dos cinco requerimentos de criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para investigar o Banco Master, conforme levantamento do ClickNews. A omissão contrasta diretamente com sua afirmação pública de que teria subscrito todas as propostas disponíveis no Senado.
Em declaração recente, Flávio Bolsonaro afirmou não ter “nada a esconder” e que, ao contrário dos governistas, havia assinado “todas” as CPIs sobre o Master. “Nenhum de vocês [governistas] assinou. Eu assinei todas”, declarou em tom provocativo. No entanto, dados obtidos pela reportagem revelam que o parlamentar assinou apenas dois dos cinco requerimentos protocolados até o momento: um da CPI Mista de autoria do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e outro de iniciativa do senador Carlos Viana (PSD-MG), este ainda não protocolado oficialmente.
A omissão em três CPIs: do aliado Girão ao governo petista
Flávio Bolsonaro deixou de apoiar três iniciativas cruciais sobre o tema: uma proposta do senador Eduardo Girão (Novo-CE), aliado político, e duas de autoria governista — uma do senador Rogério Carvalho (PT-SE) e outra de comissão mista proposta pelas deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS). A ausência de sua assinatura em requerimentos de partidos adversários, como o PT, chama atenção em um momento de alta tensão política, especialmente após a revelação de diálogos comprometedores envolvendo o dono do Master, Daniel Vorcaro.
O escândalo que impulsionou a defesa da CPI
A pressão por uma CPI sobre o Master ganhou força após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Nos diálogos, o senador teria solicitado recursos para financiar o documentário Dark Horse, produção que narra a trajetória de Jair Bolsonaro. O pedido ocorreu em 2022, quando Flávio era deputado federal e o filme ainda não havia sido lançado. À época, o parlamentar justificou que a produção era “para ajudar o pai”, Jair Bolsonaro, em sua campanha presidencial.
O requerimento protocolado pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) na Câmara amplia o escopo da investigação ao incluir as relações do Master com o Banco de Brasília (BRB), reforçando as suspeitas de irregularidades no sistema financeiro. Até o momento, seis pedidos de CPI sobre o Master tramitam no Congresso: três de oposição e três do governo. Contudo, a instalação de qualquer uma delas depende da anuência dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), cujas resistências têm emperrado o processo.
O jogo de poder e a estratégia de Flávio Bolsonaro
A postura de Flávio Bolsonaro sugere uma estratégia de controle sobre a narrativa em torno do escândalo. Ao assinar apenas os requerimentos que beneficiam sua imagem — como o de Jordy, também do PL — e ignorar os demais, o senador busca direcionar as investigações para caminhos menos prejudiciais a si próprio. Essa manobra, no entanto, esbarra em contradições óbvias, especialmente quando se considera que duas das CPIs ignoradas são de iniciativa governista, partido ao qual Flávio é filiado.
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que a falta de assinatura em requerimentos de oposição pode ser interpretada como um recuo estratégico para evitar desgaste político, enquanto a ausência em propostas do próprio governo levanta dúvidas sobre a coesão de sua base parlamentar. “Flávio Bolsonaro está em uma encruzilhada: ou assume o protagonismo na investigação, como declarou, ou corre o risco de ser visto como cúmplice de um sistema que ele próprio ajudou a construir”, analisa a cientista política Maria Aparecida de Oliveira.
O que falta para a CPI ser instaurada?
Para que uma CPI seja instalada, é necessário que o presidente da Casa respectiva — no caso das comissões mistas, o presidente do Senado — autorize a tramitação. Davi Alcolumbre, no entanto, tem postergado a decisão, alegando “prioridade a pautas legislativas”. Na Câmara, Hugo Motta também mantém os requerimentos em compasso de espera, o que tem gerado acusações de ambos os lados de obstrução política.
Enquanto isso, a sociedade civil e a imprensa seguem pressionando por transparência. O caso Master, que já envolve investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, ganha novos contornos com a recusa de Flávio Bolsonaro em assinar todas as CPIs disponíveis. A pergunta que permanece no ar é: até quando o silêncio será mantido diante de um escândalo que já ultrapassou os limites do Congresso e chega ao eleitorado?




