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Fachin adverte: Democracia pode ser erodida “de forma legal” por regimes autoritários que se valem das instituições

Redação
13 de maio de 2026 às 12:17
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Fachin adverte: Democracia pode ser erodida “de forma legal” por regimes autoritários que se valem das instituições

Foto: PODER360

Contexto histórico: A erosão democrática como estratégia autoritária

O fenômeno descrito por Fachin não é inédito na história, mas sua atualização em contextos democráticos modernos representa uma ameaça sem precedentes. Na primeira metade do século XX, ditaduras como a de Getúlio Vargas no Brasil (1937-1945) ou o regime de Franco na Espanha (1939-1975) ascenderam por meio de rupturas institucionais explícitas. Contudo, o século XXI testemunha uma metamorfose nesse modus operandi: a consolidação do autoritarismo ocorre de maneira gradual e, paradoxalmente, legal, valendo-se de mecanismos democráticos para minar a própria democracia.

Segundo o ministro, essa estratégia se apoia em três pilares interligados: a captura das instituições judiciais, a manipulação da opinião pública e a erosão sistemática das normas constitucionais. O caso brasileiro não é isolado. Em países como Hungria, Polônia e Turquia, cortes constitucionais foram alvo de reformas legislativas que reduziram sua independência, enquanto governos eleitos democraticamente promoveram o que Fachin denominou de “deslegitimação institucional” de órgãos julgadores.

Independência judicial sob ataque: O paradoxo da “legalidade autoritária”

A fala de Fachin durante a 16ª Conferência Ibero-Americana de Justiça Constitucional, realizada em 13 de maio de 2026 na sede do STF, foi categórica: a independência do Judiciário não é um privilégio da magistratura, mas uma garantia dos cidadãos. O ministro destacou que, quando um tribunal cede à pressão política ou ao assédio judicial — como a PEC que visa punir magistrados por decisões impopulares — , “quem é prejudicado não é o juiz, é o jurisdicionado que confia em uma Justiça imparcial”.

Dados da organização Justice Initiative revelam que, entre 2015 e 2025, 42% dos países que experimentaram declínios significativos em seus índices democráticos (segundo a Economist Intelligence Unit) apresentaram casos de tentativas de interferência em cortes superiores. No Brasil, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2023, embora não convertida em lei, exemplifica esse movimento ao propor a vinculação de decisões judiciais a “vontade popular” — um conceito jurídico controverso que, na prática, pode submeter o Judiciário ao Executivo ou ao Legislativo.

Redes sociais e IA: Os novos vetores de manipulação democrática

Além das instituições formais, Fachin apontou para um inimigo menos visível, mas igualmente perigoso: as bolhas algorítmicas e a inteligência artificial. Segundo ele, plataformas digitais não apenas polarizam o debate público, mas também redefinem a formação da opinião eleitoral, criando realidades paralelas onde fatos são submetidos a narrativas distorcidas. O ministro citou casos em que modelos de IA foram treinados com dados enviesados para disseminar desinformação, como ocorreu durante as eleições de 2024 nos Estados Unidos e na Europa.

A 16ª edição da Conferência Ibero-Americana, que reuniu representantes de 28 países, discutiu exatamente essa intersecção entre tecnologia e democracia. A ministra da Justiça da Espanha, Pilar Llop, alertou para o risco de que, em 2026, mais de 60% da população global viva em países onde conteúdos gerados por IA influenciam decisões políticas. Fachin, por sua vez, propôs a criação de um “código de ética global para uso de IA em processos eleitorais”, ainda sem adesão formal por parte dos governos.

Desdobramentos internacionais: Como outros países reagem?

A estratégia de Fachin de internacionalizar o debate não é casual. Em 2020, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) já havia emitido resolução alertando sobre a “erosão silenciosa da democracia” na América Latina, com foco em casos como o da Nicarágua, onde reformas judiciais permitiram a prisão de opositores sob acusações duvidosas. Na Polônia, o Tribunal Constitucional foi transformado em 2021 em uma “câmara de eco do governo” após a aprovação de leis que obrigavam juízes a se aposentarem compulsoriamente, substituindo-os por aliados políticos.

No entanto, há sinais de resistência. Na Colômbia, a Corte Constitucional bloqueou recentemente uma reforma que alterava a composição do Conselho Superior da Magistratura, enquanto na Argentina, a Suprema Corte anulou dispositivos que reduziam a autonomia do Ministério Público. Esses casos demonstram que, embora a tendência seja preocupante, ainda é possível reverter o processo pela via judicial — desde que as cortes mantenham sua independência.

O Brasil na encruzilhada: Entre a legalidade autoritária e a resistência institucional

O Brasil, segundo Fachin, encontra-se em um momento crítico. A PEC 32/2023, apesar de não ter avançado no Congresso, abriu precedente para outras propostas que visam “flexibilizar” a atuação do STF. Além disso, o ministro destacou a crescente judicialização da política, onde decisões judiciais são usadas como moeda de troca em negociações partidárias, enfraquecendo a separação dos poderes.

Para o professor de Direito Constitucional da USP, Pedro Serrano, a fala de Fachin é um “marco na defesa da democracia brasileira”. “Fachin está correto ao afirmar que a erosão democrática não precisa ser violenta para ser eficaz. Ela pode ser lenta, silenciosa e, sobretudo, legal. O desafio agora é conscientizar a sociedade de que a independência do Judiciário não é um tema corporativo, mas uma questão de cidadania”, afirmou Serrano.

Perspectivas futuras: O que esperar da democracia em 2026?

Com eleições presidenciais previstas para outubro de 2026 em diversos países, incluindo o Brasil, a advertência de Fachin ganha urgência. A combinação de instituições fragilizadas, tecnologia de manipulação em massa e polarização social cria um cenário propício para o avanço de regimes autoritários. No entanto, especialistas como a cientista política norte-americana Yascha Mounk, autora de “O Povo Contra a Democracia”, apontam que a resistência pode vir de setores inesperados: a própria juventude, cada vez mais engajada em causas democráticas, e a magistratura, que tem demonstrado maior disposição para enfrentar pressões políticas.

A 16ª Conferência Ibero-Americana encerra-se nesta quinta-feira (14.mai.2026), mas seu legado — a discussão sobre a resiliência democrática — deve perdurar. Enquanto isso, cabe à sociedade civil, aos órgãos internacionais e aos poderes da República brasileira permanecerem vigilantes. Como afirmou Fachin: “A democracia não se defende apenas nas urnas, mas também — e principalmente — nas cortes, nas redações e nas ruas”.

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