Contexto histórico e perfil vulcânico do Monte Dukono
O Monte Dukono, localizado na ilha de Halmahera — província de North Maluku, na Indonésia — é um dos vulcões mais ativos do arquipélago asiático, com registros eruptivos contínuos desde o século XVI. Classificado como um estratovulcão do tipo andesítico, sua atividade é caracterizada por erupções explosivas de intensidade moderada a alta, com emissões frequentes de cinzas, gases e fluxos piroclásticos. Segundo dados do Global Volcanism Program do Smithsonian Institution, o Dukono entrou em erupção de forma intermitente desde 1933, com picos de atividade em 2015 e 2021, quando colunas de cinzas atingiram altitudes superiores a 6 km. A topografia íngreme da montanha, aliada à sua localização em uma zona de subducção tectônica, contribui para a recorrência de eventos eruptivos e a formação de plumas vulcânicas de grande escala.
Detalhes da erupção e resposta emergencial
Na manhã de sexta-feira (horário local), por volta das 07h41, o Monte Dukono entrou em uma nova fase eruptiva, lançando uma densa pluma de cinzas e material piroclástico a uma altitude estimada de 10 km, conforme relatado pelo Volcanological Survey of Indonesia (VSI). Autoridades confirmaram que a erupção foi precedida por um aumento significativo na atividade sísmica, com mais de 47 tremores vulcânicos registrados nas 24 horas anteriores. A nuvem de cinzas, visível em imagens de satélite da NASA, se dispersou em direção ao nordeste, afetando o tráfego aéreo regional e obrigando o fechamento temporário do aeroporto de Ternate, a 150 km do epicentro da erupção.
Um grupo de 20 montanhistas, composto por nove cidadãos de Singapura, oito indonésios e três estrangeiros — incluindo dois australianos — encontrava-se em trilha na encosta do vulcão na noite anterior à erupção, desrespeitando a proibição oficial de escalada emitida pelo governo provincial em 2022. Segundo depoimentos de sobreviventes, a erupção ocorreu enquanto o grupo se preparava para acampar na cratera secundária. Os três órfãos — identificados como dois turistas estrangeiros e um guia local — foram encontrados mortos por asfixia devido à inalação de gases vulcânicos e queimaduras severas. Os demais membros do grupo, resgatados por equipes de emergência do National Disaster Management Authority (BNPB), apresentam ferimentos variados, desde queimaduras de segundo grau até problemas respiratórios agudos.
Críticas ao descumprimento de normas de segurança
A tragédia levantou questionamentos sobre a fiscalização das atividades turísticas em áreas de risco vulcânico na Indonésia. O governador de North Maluku, Abdul Ghani Kasuba, declarou em coletiva de imprensa que o grupo havia ingressado ilegalmente no Parque Nacional de Aketajawe-Lolobata, uma unidade de conservação que abrange a zona de risco do Dukono. “Esta região é monitorada 24 horas por dia por nossas equipes, e a escalada foi proibida após a última erupção em março de 2023”, afirmou o chefe do VSI, Hendra Gunawan. Dados do Indonesia National Parks indicam que, desde 2020, pelo menos 14 acidentes envolvendo turistas em vulcões ativos foram registrados, resultando em 23 mortes.
Especialistas em gestão de desastres, como o geólogo da Universidade da Indonésia, Dr. Surono, destacam a necessidade de revisão das políticas de acesso às zonas vulcânicas. “A Indonésia possui 127 vulcões ativos, mas muitos governos regionais ainda tratam o turismo de aventura como prioritário em detrimento da segurança”, afirmou Surono. Ele ressaltou que, embora o Monte Dukono não seja considerado um vulcão de risco extremo — como o Merapi ou o Sinabung —, sua atividade constante exige protocolos rígidos de evacuação e monitoramento em tempo real.
Impactos regionais e medidas de mitigação
As cinzas da erupção afetaram pelo menos 12 aldeias localizadas a leste de Halmahera, forçando cerca de 2.500 residentes a evacuarem temporariamente para abrigos provisórios. O Ministério da Saúde da Indonésia ativou equipes de saúde pública para distribuição de máscaras N95 e orientação sobre doenças respiratórias, como a vulcanose, uma condição inflamatória aguda causada pela inalação de partículas vulcânicas. Além disso, a Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica (BMKG) emitiu alertas de qualidade do ar para as províncias de North Maluku e Sulawesi do Norte, classificando o índice de poluição como “muito prejudicial” para grupos vulneráveis.
Em resposta à crise, o governo indonésio anunciou o reforço das barreiras físicas ao redor do parque nacional e a instalação de 15 novos postos de monitoramento sísmico até o final de 2024. A Associação de Vulcanologia da Ásia-Pacífico (APVC) recomendou ainda a implementação de um sistema de alarme sonoro nas trilhas mais frequentadas, semelhante ao adotado no Monte Batur, em Bali. “A tecnologia de alerta precoce pode reduzir em até 40% o número de vítimas em erupções repentinas”, declarou a coordenadora da APVC, Dra. Mei Lin.
Análise de riscos e lições para o turismo de aventura
A tragédia no Monte Dukono reforça a necessidade de uma abordagem integrada entre governos, cientistas e operadores turísticos para minimizar riscos em destinos vulcânicos. Segundo dados da Organização Mundial do Turismo (OMT), a Indonésia atraiu 12,6 milhões de turistas internacionais em 2023, com um crescimento de 24% em relação ao ano anterior, impulsionado por roteiros de ecoturismo e aventura. No entanto, o país ocupa o 4º lugar no ranking global de mortes por desastres naturais, segundo o Índice de Risco Mundial da Verisk Maplecroft.
Especialistas em segurança recomendam que os viajantes verifiquem sempre os boletins emitidos pelo VSI e pelas agências locais de turismo antes de planejar expedições em vulcões ativos. “A beleza de uma erupção não justifica o risco. A Indonésia possui maravilhas naturais incríveis, mas é fundamental respeitar os limites impostos pela natureza”, alertou o Dr. Vasconcelos, que há duas décadas estuda a correlação entre atividade vulcânica e turismo na região.
Perspectivas futuras e conclusão
Enquanto as equipes de resgate continuam a busca pelos corpos dos dois guias que permaneceram no local para auxiliar na recuperação das vítimas, as autoridades buscam reabrir as trilhas sob estrito controle. O impacto econômico da erupção já é sentido na região, com cancelamentos de reservas em hotéis e pousadas de Ternate e Sofifi, cidades que dependem do turismo vulcânico. A Associação de Hotéis e Restaurantes de North Maluku estima prejuízos de até R$ 5 milhões (USD 300 mil) nas próximas duas semanas.
Para os próximos meses, o VSI prevê um aumento na atividade do Dukono, com potencial para novas erupções de magnitude similar. A comunidade científica internacional acompanha o caso de perto, especialmente após a recente erupção do Monte Marapi em dezembro de 2023, que resultou em 23 mortes. “A Indonésia precisa urgentemente de um plano nacional de gestão de riscos vulcânicos, com investimentos em educação pública e infraestrutura de monitoramento”, concluiu o geólogo indonésio Hendra Gunawan. Enquanto isso, três famílias choram seus entes queridos, enquanto o Monte Dukono, indiferente, continua sua dança de fogo e cinzas.
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