Trajetória de resiliência em meio à batalha oncológica
A trajetória de superação da enfermeira Maria Clara Fernandes, 38 anos, natural de São Paulo (SP), tornou-se um exemplo de resiliência profissional e pessoal ao concluir, na manhã desta terça-feira (12/05), o ciclo de quimioterapia contra um câncer de mama diagnosticado em outubro de 2024. O encerramento do tratamento, coincidente com o Dia do Enfermeiro, foi marcado por um ‘buzinaço’ coletivo organizado por colegas e amigos, ecoando não apenas os 14 dias de intervalo entre as 12 sessões, mas também o simbolismo de uma profissão que, paradoxalmente, enfrenta a doença de frente enquanto cuida dos outros.
Diagnóstico precoce e cirurgia conservadora: os primeiros passos
O diagnóstico precoce, identificado em novembro de 2024 por meio de exames de rotina, permitiu a realização de uma cirurgia conservadora (quadrantectomia) no mês seguinte. Segundo relatório médico do Hospital Sírio-Libanês, onde a paciente foi acompanhada, o tumor apresentava 2,3 cm de diâmetro e não havia comprometimento linfático, o que possibilitou a preservação da mama afetada. A estratégia terapêutica, definida por uma equipe multidisciplinar, incluiu quimioterapia neoadjuvante (pré-cirurgia) para reduzir a massa tumoral, seguida de radioterapia adjuvante prevista para julho de 2025.
Quimioterapia: entre a ciência e a emoção humana
A primeira sessão de quimioterapia, administrada em 30 de dezembro de 2024 no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), marcou o início de um processo que, embora tecnicamente padronizado, carrega nuances de sofrimento individual. A paciente relatou ao ClickNews que os efeitos colaterais, como alopecia completa e fadiga intensa, foram amenizados pela rede de apoio formada por colegas de trabalho, familiares e psicólogos oncológicos. “A quimioterapia não é apenas um protocolo médico; é uma montanha-russa emocional. Cada ciclo era uma batalha vencida, mas também uma ferida aberta”, declarou Maria Clara, que optou por manter os cabelos curtos mesmo após a queda, como forma de simbolizar a transformação interna.
O ‘buzinaço’ do Dia do Enfermeiro: um ato de protagonismo
O encerramento do ciclo quimioterápico, coincidentemente no Dia do Enfermeiro (12 de maio), foi celebrado com um ‘buzinaço’ organizado pela equipe do Hospital Municipal de Urgências de São Paulo, onde Maria Clara atuava antes do afastamento para tratamento. O ato, que reuniu cerca de 50 profissionais, incluiu buzinas de carros, apitos e palavras de incentivo gravadas em vídeo, compartilhadas nas redes sociais sob a hashtag #EnfermeiraVencedora. “Recebi mensagens de pessoas que não conheço, mas que se identificaram com a minha história. Isso me mostrou que a luta contra o câncer é também uma vitória coletiva”, afirmou a enfermeira, que já planeja retornar às atividades assistenciais em junho, após a alta médica.
Impacto na saúde mental e políticas públicas
A experiência de Maria Clara reflete um cenário mais amplo no Brasil, onde o câncer de mama é o tipo mais incidente entre mulheres, com 73 mil novos casos estimados para 2025, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A Sociedade Brasileira de Oncologia (SBOC) destaca que, embora 70% dos casos sejam diagnosticados em estágios iniciais, a falta de acesso a tratamentos psicológicos integrados ao SUS (Sistema Único de Saúde) agrava o impacto emocional da doença. “Casos como o de Maria Clara são raros por sua visibilidade, mas representam uma minoria. A maioria das pacientes enfrenta barreiras burocráticas e falta de suporte psicossocial”, pontuou a oncologista Dra. Ana Luiza Ferraz, coordenadora do Programa de Saúde da Mulher da SBOC.
Prognóstico e próximos desafios
Com o término da quimioterapia, Maria Clara entrará em uma nova fase de acompanhamento, que inclui exames trimestrais para monitorar possíveis recidivas. A radioterapia, prevista para julho, será o próximo passo, seguida de terapia hormonal por cinco anos. Segundo o oncologista responsável, Dr. Ricardo Oliveira, as chances de remissão completa são superiores a 85% para casos como o dela. “Entretanto, a readaptação profissional e social é tão crucial quanto o tratamento médico. A paciente precisará de um ambiente de trabalho acolhedor, que respeite suas limitações temporárias”, alertou o especialista.
Legado e reflexão sobre a profissão de enfermagem
A história de Maria Clara transcende o âmbito pessoal: ela expõe as vulnerabilidades da profissão de enfermagem, frequentemente associada à dedicação irrestrita e à exposição a riscos ocupacionais, incluindo o contato com agentes químicos e biológicos. Dados do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) indicam que, entre 2020 e 2024, 12% dos casos de câncer ocupacional notificados no Brasil envolviam profissionais de saúde. “Ser enfermeira não é apenas cuidar; é também se expor a riscos que muitas vezes são invisibilizados. Precisamos de políticas que protejam quem cuida”, defendeu a presidente do COFEN, Betânia Santos.
Conclusão: uma vitória compartilhada
A celebração do fim da quimioterapia de Maria Clara, embora simbólica, carrega um peso histórico: ela representa a superação de uma doença que, há décadas, é cercada por tabus e estigmas. Em um país onde a mortalidade por câncer de mama ainda é alta — 18 mortes a cada 100 mil mulheres em 2024, segundo o DATASUS —, cada caso de remissão é um avanço contra a estatística. Para a paciente, o legado é claro: “Eu não venci sozinha. Minha vitória é também de quem me apoiou, de quem pesquisa e de quem luta por um sistema de saúde mais justo”.




