Tragédia provocada por enxurradas e deslizamentos devastou comunidades inteiras, atingiu turistas estrangeiros e mantém autoridades em alerta diante do risco de uma segunda inundação na região de fronteira
As operações de busca foram intensificadas nesta quinta-feira na região montanhosa entre o Nepal e o Tibete, após enchentes repentinas e deslizamentos deixarem mais de 360 mortos e aproximadamente 1,5 mil pessoas desaparecidas. O desastre atingiu localidades dos dois lados da fronteira e provocou destruição em povoados, áreas comerciais e importantes corredores de circulação.
De acordo com os balanços oficiais divulgados até o momento, 362 mortes foram confirmadas no território nepalês e outras três no lado chinês. Os números ainda são considerados preliminares e podem aumentar à medida que as equipes conseguem alcançar as áreas mais afetadas.
Imagens registradas no Tibete revelam a violência da enxurrada. Em um dos vídeos, uma massa de lama, água e detritos avança contra um edifício de vários pavimentos enquanto moradores tentam escapar. Veículos, incluindo ônibus e automóveis, também foram levados pela correnteza.
A intensidade do fenômeno foi suficiente para gerar um sinal interpretado como um “evento sísmico” de magnitude 5,2 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Uma das hipóteses investigadas é a de que o colapso de uma geleira tenha desencadeado a sequência de eventos.
Centenas de turistas estão entre os desaparecidos
No Nepal, as regiões mais atingidas incluem o vale do rio Trishuli, no distrito de Nuwakot, ao norte de Katmandu, e o vale do Bhote Koshi, na porção leste do país.
Cerca de 24 horas após a tragédia, as autoridades nepalesas ainda procuravam 823 pessoas. Segundo o Escritório de Turismo, 517 delas são estrangeiras. Considerando também os desaparecidos no território chinês, aproximadamente 700 turistas permaneciam sem localização confirmada.
Entre os estrangeiros procurados estão 178 indianos, 65 norte-americanos, 53 ucranianos, 51 malaios, 35 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. O governo da Espanha informou ainda que quatro cidadãos espanhóis não haviam sido encontrados.
No Tibete, veículos da imprensa estatal chinesa relataram que 558 pessoas estavam desaparecidas após a passagem da lama pela região de Gyirong. Desse total, 260 seriam estrangeiros, mas suas nacionalidades não foram informadas.
O nepalês Raju Bhadel, de 56 anos, relatou ter recebido uma ligação do cunhado durante a procura por familiares.
“Eles estavam chorando e disseram que toda a casa havia sido destruída. Três membros da família foram resgatados, mas seu irmão continua desaparecido”, contou Bhadel.
Povoados foram soterrados por lama e destroços
As condições do terreno dificultam o acesso dos socorristas. Grandes volumes de lama cobrem estradas e construções, enquanto deslizamentos chegaram a soterrar os pavimentos inferiores de prédios em algumas localidades.
Subash Khatani também participa das buscas por um familiar.
“Ele está entre os desaparecidos de Rasuwa, por isso saímos para procurá-lo”, afirmou Khatani.
David Fisher, diretor no Nepal da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, classificou o cenário como de ampla devastação.
“Povoados inteiros e áreas de comércio foram destruídos”, afirmou Fisher.
Os Estados Unidos anunciaram a destinação de US$ 500 mil para ações de assistência humanitária.
O Exército do Nepal realiza missões aéreas sobre as regiões atingidas e informou ter resgatado dezenas de pessoas. Comunidades localizadas próximas aos rios e consideradas vulneráveis a novas enxurradas receberam ordem para abandonar temporariamente suas casas.
Bloqueio em rio aumenta temor de nova tragédia
Além das buscas pelos desaparecidos, as autoridades acompanham com preocupação a situação de um curso d’água na região fronteiriça. Um bloqueio formado na parte superior do rio pode romper e desencadear uma segunda onda de inundação.
“Como ainda há um bloqueio na parte alta do rio que faz fronteira entre Nepal e China, as autoridades alertam que uma segunda inundação pode ocorrer”, explicou Qianggong Zhang, chefe de riscos climáticos e ambientais do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD).
Especialistas ainda tentam determinar a causa exata do desastre. Antes da enxurrada, pesquisadores já avaliavam a possibilidade de uma avalanche de gelo ter atingido o rio Lhende. O impacto poderia ter elevado rapidamente o volume de água conectado ao sistema do Bhote Koshi, formando a torrente de lama e detritos.
Gyirong sofre forte impacto no lado tibetano
Na China, uma das áreas mais afetadas foi o porto de Gyirong, importante ponto de comércio internacional entre o Tibete e o Nepal. Imagens aéreas divulgadas pela televisão estatal mostram construções parcialmente encobertas por lama e extensas áreas tomadas por sedimentos.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou a mobilização de equipes de emergência e a ampliação dos recursos empregados nas operações.
“A tarefa mais urgente é fazer todo o possível para procurar e resgatar as pessoas desaparecidas”, afirmou Xi, segundo a emissora estatal chinesa.
O dalai-lama também se pronunciou sobre a tragédia. Ele afirmou que reza pelas vítimas e defendeu a adoção de “medidas de ajuda adequadas”.
Monções ampliam vulnerabilidade da região
Enchentes e deslizamentos são recorrentes no sul da Ásia durante o período de monções, que normalmente se estende de junho a setembro. A topografia montanhosa e a grande concentração de comunidades próximas a rios aumentam a exposição a episódios de chuva extrema.
Pesquisadores também apontam que o aquecimento global pode agravar esse cenário. Estudos climáticos indicam que eventos extremos associados a chuvas intensas tendem a se tornar mais frequentes e severos em diferentes áreas da região, elevando os riscos para populações instaladas em encostas e vales.




