A ilha caribenha enfrenta seu pior colapso energético em décadas
Segundo declarações do ministro cubano da Energia, as reservas de diesel e petróleo foram exauridas, desencadeando uma crise que se alastra por todo o território nacional. O anúncio, feito em meio a apagões diários e cortes programados, expõe a fragilidade de um sistema dependente de importações em um contexto de pressões geopolíticas.
O gatilho da crise: bloqueio e dependência energética
O cerne do problema reside na combinação de dois fatores estruturais. Primeiro, a dependência quase total de Cuba em relação a importações de combustíveis, historicamente provenientes de aliados como a Venezuela e, em menor escala, da Rússia. Segundo, o endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos, que, desde 2017, ampliaram restrições ao comércio com a ilha — incluindo a proibição de navios que transportem petróleo venezuelano atracarem em portos cubanos. Essa medida, segundo analistas, reduziu em cerca de 40% o fornecimento de diesel ao país nos últimos dois anos.
Apagões em cadeia: o colapso da infraestrutura
Os efeitos são imediatos e devastadores. Desde o início do ano, as províncias orientais — incluindo Santiago de Cuba e Holguín — registram cortes de energia de até 12 horas diárias, enquanto Havana enfrenta um rodízio de 8 horas. O ministro não descartou a possibilidade de um ‘racionamento total’ em breve. A falta de combustível também paralisa transportes públicos, hospitais e indústrias, agravando a inflação já superior a 50% ao ano. ‘Não há margem para erros’, afirmou o ministro em coletiva, ‘cada litro de diesel economizado hoje pode significar luz amanhã’.
Reações internacionais: entre a solidariedade e a geopolítica
A crise desperta divisões na comunidade internacional. Enquanto a Rússia anunciou a doação de 100 mil toneladas de petróleo — um gesto simbólico diante da demanda cubana —, a União Europeia limitou-se a ‘monitorar a situação’. Nos EUA, a administração Biden manteve as sanções, argumentando que ‘as exceções humanitárias já são suficientes’. Analistas como o professor Carlos Alberto Montaner, da Universidade de Miami, veem na medida uma estratégia de ‘pressão seletiva’ para forçar mudanças políticas em Havana.
O que esperar: cenários para os próximos 90 dias
Três desdobramentos principais emergem no horizonte. Primeiro, a possibilidade de um acordo emergencial com a China, que, apesar de não ter confirmado ajuda, mantém laços econômicos estratégicos com Cuba. Segundo, o risco de protestos sociais, dado o histórico de levantes como os de julho de 2021 — quando a escassez de alimentos e remédios levou milhares às ruas. Terceiro, a pressão sobre o governo cubano para implementar reformas estruturais, como a liberalização parcial do setor energético, uma medida ainda bloqueada por setores ortodoxos do Partido Comunista. ‘Cuba não está à beira do precipício’, avalia a economista cubana Mayra Espina. ‘Mas já pisou no vazio’.




