Lá pelos idos de 1972, eu morava próximo à casa do meu cunhado.
O pai dele, o senhor João Pereira, que já havia ultrapassado os setenta e cinco anos, ocupava um pequeno cômodo ao lado da casa.
Volta e meia eu passava por lá para uma conversa.
Gostava de ouvi-lo.
Havia pessoas que estudavam para parecer sábias; ele parecia sábio sem precisar demonstrar.
Uma das coisas que mais me impressionava era sua biblioteca.
Livros e mais livros, cuidadosamente guardados.
Naquele tempo, quem desejava aprender precisava abrir páginas, percorrer capítulos, sublinhar ideias.
Hoje temos a internet, onde quase tudo está ao alcance de um clique.
Ainda assim, continuo acreditando que há uma diferença entre procurar uma informação e absorver um conhecimento.
O livro nos obriga a caminhar; a internet, muitas vezes, apenas nos transporta.
Numa tarde qualquer, dessas que parecem comuns até o instante em que deixam de ser, eu estava sentado ao lado dele falando justamente sobre livros.
Foi quando pronunciou uma frase que atravessou mais de meio século e continua viva em minha memória:
Wilton, “no mundo existem uma meia dúzia de homens. O resto é tudo comedor de feijão”.
Na hora, sorri sem entender completamente o alcance daquela observação.
Pareceu apenas uma dessas frases curiosas que os mais velhos costumavam dizer.
Mas o tempo tem o hábito de amadurecer certas sementes dentro da gente.
Anos depois, quando ele já havia partido desta vida, voltei a refletir sobre aquelas palavras.
O que ele queria dizer?
Certamente não falava de superioridade humana.
Nem de riqueza, posição social ou títulos acadêmicos.
Havia algo mais profundo escondido naquela simplicidade.
Comecei a observar o mundo.
Percebi que, de fato, são poucos os que enxergam além da paisagem que todos veem.
São poucos os que desafiam o comum, criam caminhos novos, inventam soluções, formulam ideias capazes de modificar a vida de milhões.
São poucos os que deixam marcas tão profundas que o mundo se transforma depois que passam por ele.
Enquanto isso, a imensa maioria de nós vive ocupada em cumprir tarefas.
Acordamos cedo.
Trabalhamos.
Pagamos contas.
Criamos filhos.
Enfrentamos preocupações.
Dormimos.
E repetimos tudo novamente no dia seguinte.
Somos, na expressão daquele velho sábio, apenas “comedores de feijão”.
Mas, quanto mais envelheço, mais percebo que talvez a frase esconda uma segunda interpretação.
Talvez aqueles poucos homens que mudam o mundo só existam porque existem milhões de comedores de feijão sustentando a engrenagem da vida.
Afinal, de que serviria um inventor sem alguém para fabricar sua invenção? Ou até mesmo para utilizá-la?
De que serviria um líder sem pessoas para realizar o trabalho?
De que serviria um grande pensador sem uma sociedade inteira para colocar suas ideias em prática?
O mundo não gira apenas por causa dos que aparecem nos livros de história.
Ele gira também por causa da professora que ensina a primeira letra.
Do lavrador que planta o alimento.
Do motorista que transporta pessoas.
Da mãe que educa os filhos.
Do operário que constrói pontes sem jamais atravessar a fama.
Talvez o erro esteja em imaginar que importância e notoriedade sejam a mesma coisa.
Não são.
Muitas vezes, quem parece pequeno aos olhos do mundo é gigante aos olhos da vida.
Ainda assim, a frase daquele velho continua provocando meus pensamentos.
Porque ela nos convida a uma pergunta desconfortável:
estamos apenas repetindo movimentos ou estamos realmente pensando?
Vivemos por hábito ou por propósito?
Passamos pela existência como passageiros distraídos ou como viajantes conscientes?
Nem todos nasceram para inventar uma lâmpada, descobrir uma vacina ou fundar uma empresa.
Mas todos recebemos a capacidade de refletir sobre o sentido do que fazemos.
E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira diferença.
Não entre os homens e os comedores de feijão.
Mas entre aqueles que vivem apenas porque respiram e aqueles que respiram sabendo por que vivem.
Hoje, quando me lembro daquele senhor cercado de livros, sentado em seu pequeno quarto, vejo que sua frase era menos uma crítica e mais um convite.
Um convite para despertar.
Para pensar.
Para não atravessar os dias apenas consumindo o tempo.
Porque o feijão alimenta o corpo.
Mas é a consciência que alimenta a alma.
E uma alma desperta vale mais do que uma vida inteira vivida no automático.
Talvez a grande obra da vida não seja mudar o mundo inteiro.
Talvez seja apenas evitar que o mundo passe por nós sem que tenhamos compreendido o significado de nossa própria existência.

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