Contexto histórico e marco legal
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) publicou, em 6 de maio de 2026, resolução que redefiniu a meta de descarbonização do setor de gás natural para 0,5%, reduzindo o percentual inicial de 1% estabelecido pela Lei 14.993/2024 — conhecida como Lei do Combustível do Futuro. A medida, publicada no Diário Oficial da União (DOU), representa um recuo estratégico frente aos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil, mas é justificada pelo governo como necessária para alinhar a política energética à capacidade produtiva do mercado de biometano, substituto sustentável ao gás natural convencional.
Critérios técnicos e justificativas governamentais
Segundo o superintendente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), André Galvão, a revisão da meta partiu de dados reais apresentados pelos players do setor. “A avaliação inicial do governo previa uma redução de 0,25%, mas a revisão de parâmetros apresentados pelo setor viabilizou o ajuste para 0,5%”, afirmou. Galvão destacou que o limite anterior não considerava a maturidade das plantas de biometano em operação ou em fase de implementação, muitas das quais ainda não haviam atingido capacidade plena de produção.”
Reação do setor produtivo e perspectivas de mercado
O diretor-executivo da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Tiago Santovito, avaliou positivamente a definição de 0,5% como meta inicial. “O que a gente pode entregar com base em confiança, credibilidade e transparência é o volume que cumpre os 0,5%”, declarou. Santovito lembrou que já existem volumes comercializados no mercado de biometano, embora ainda em escala limitada. A expectativa é que a expansão do setor, impulsionada por políticas de aproveitamento de resíduos sólidos, permita um aumento gradual da participação do biocombustível na matriz energética nacional.”
Mecanismos de monitoramento e ajustes futuros
Em paralelo à revisão da meta, o CNPE instituiu uma Mesa de Monitoramento do Mercado de Biometano, coordenada pelo Ministério de Minas e Energia. O colegiado terá como função avaliar periodicamente a capacidade produtiva do setor e propor reajustes para que, futuramente, a meta original de 1% seja retomada. “A Mesa será fundamental para garantir transparência e previsibilidade, evitando distorções no mercado”, afirmou Galvão. A iniciativa integra o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, criado pela Lei do Combustível do Futuro.
Impacto nos compromissos internacionais e na NDC brasileira
A decisão do CNPE gera repercussões diretas sobre os compromissos climáticos brasileiros, especialmente a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) apresentada durante a COP29 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), realizada em Baku, no Azerbaijão. A NDC brasileira prevê redução de emissões entre 59% e 67% até 2035, com neutralidade de carbono até 2050. Segundo analistas, a redução da meta de descarbonização do gás natural pode comprometer parcialmente o cumprimento dessas metas setoriais, embora o governo afirme que o ajuste é temporário e alinhado à transição energética realista.”
Desafios e oportunidades no setor de biometano
O setor de biometano enfrenta desafios estruturais, como a necessidade de ampliação da infraestrutura de logística e armazenamento, além da dependência de políticas públicas de fomento. “Existem plantas de biometano que estão para ser inauguradas, mas a escala ainda é limitada”, explicou Galvão. Por outro lado, o aproveitamento de resíduos sólidos urbanos e agrícolas para produção de biogás representa uma oportunidade de sinergia entre a gestão de resíduos e a transição energética, alinhada aos princípios da economia circular.
Cenário regulatório e próximos passos
O reajuste da meta de descarbonização do gás natural reflete um movimento de flexibilização regulatória em setores-chave da transição energética brasileira. Especialistas destacam que a medida pode ser interpretada como um sinal de maturidade do setor, que ainda depende de incentivos fiscais e linhas de crédito específicas para viabilizar projetos. “O desafio agora é garantir que a Mesa de Monitoramento atue de forma ágil, para que ajustes possam ser feitos sem prejudicar a trajetória de descarbonização”, avaliou Santovito. A expectativa é que, com o avanço das plantas de biometano e a consolidação do mercado, a meta de 1% seja retomada até o final da década.




