Estudo revela disparidade entre estradas concedidas à iniciativa privada e vias administradas pelo poder público, com impacto direto na gravidade dos acidentes
Infraestrutura ainda representa risco em grande parte da malha rodoviária
Um levantamento divulgado pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) mostra que somente uma parcela reduzida das rodovias brasileiras apresenta condições capazes de minimizar os impactos de acidentes de trânsito. De acordo com o estudo, apenas 19,9% da extensão analisada foi classificada com alto índice de segurança, enquanto a maior parte das estradas permanece em níveis considerados médios ou baixos.
O diagnóstico integra a edição de 2025 do Índice de Perdão nas Rodovias, recorte da tradicional Pesquisa CNT Rodovias, que avalia anualmente as condições da infraestrutura viária no país. Neste ano, foram examinados mais de 114 mil quilômetros de estradas em todas as regiões brasileiras.
Conceito avalia capacidade da rodovia de reduzir danos em acidentes
A metodologia utilizada pela CNT segue parâmetros internacionais baseados no conceito de “rodovias que perdoam”, que mede a capacidade da infraestrutura de reduzir a gravidade das consequências em situações de sinistro.
Entre os aspectos considerados estão a existência de defensas metálicas, barreiras de proteção, acostamentos, áreas livres de obstáculos, atenuadores de impacto e outros dispositivos de segurança passiva. Quanto maior a presença desses elementos, menor tende a ser a severidade dos acidentes e, consequentemente, maior o índice de perdão atribuído à rodovia.
Segundo os dados levantados, 22.694 quilômetros receberam classificação de alto perdão. Outros 48.733 quilômetros foram enquadrados na faixa intermediária, enquanto 44.770 quilômetros apresentaram baixo índice de segurança, cenário que amplia o potencial de acidentes graves.
Mais de 80% das estradas ainda apresentam vulnerabilidades
Na comparação com os resultados obtidos em 2024, houve uma pequena redução no percentual de rodovias classificadas com alto padrão de segurança, que caiu 0,4 ponto percentual. Ao mesmo tempo, a faixa intermediária registrou crescimento de 0,9 ponto percentual.
O estudo alerta para a permanência de riscos significativos em grande parte da malha rodoviária nacional.
“Esse cenário mostra que mais de 80% da extensão analisada continua apresentando média ou alta probabilidade de que falhas de infraestrutura, somadas a erros de condução ou problemas mecânicos, resultem em mortes ou feridos graves”, diz a pesquisa.
São Paulo lidera ranking de segurança viária
Entre os estados avaliados, São Paulo se destaca por apresentar os melhores indicadores. Dos quase 11 mil quilômetros analisados, cerca de 70% foram classificados com elevado padrão de segurança. Apenas 518 quilômetros foram enquadrados na categoria de maior risco.
Em sentido oposto, estados da Região Norte enfrentam cenários mais críticos. Amapá e Roraima não registraram nenhum trecho com classificação máxima de segurança.
Os maiores percentuais de rodovias com baixo índice de perdão foram identificados no Amazonas, com 74,7%, e no Maranhão, com 74,3%. No caso amazonense, a avaliação contemplou 989 quilômetros de estradas, enquanto o Maranhão teve 4.724 quilômetros analisados.
Os governos estaduais do Amazonas, Maranhão, Amapá e Roraima, além do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), foram procurados por e-mail, mas não haviam se manifestado até a conclusão da reportagem original.
Concessões privadas concentram os melhores resultados
A pesquisa também evidencia uma forte relação entre o modelo de gestão das rodovias e os níveis de segurança observados. Os trechos mais bem avaliados concentram-se principalmente nas regiões Sul e Sudeste, onde predominam as concessões à iniciativa privada.
Os dados mostram que 62% das estradas concedidas apresentam alto índice de perdão. Já os segmentos classificados como de maior risco representam apenas 2,4% dessa malha.
Nas rodovias administradas pelo poder público, o quadro é significativamente diferente. Metade dos trechos avaliados apresenta baixo nível de segurança, enquanto apenas 4,8% alcançam a classificação máxima de proteção aos usuários.
Além disso, o percentual de rodovias públicas enquadradas na categoria de alto perdão recuou de 6,2% em 2024 para 4,8% em 2025.
Minas Gerais e São Paulo ilustram contrastes regionais
O levantamento aponta situações distintas entre os estados. Em Minas Gerais, oito das 85 rodovias avaliadas receberam classificação integral de baixo índice de perdão. Todas são administradas por órgãos públicos estaduais ou federais.
Já em São Paulo, apenas duas das 106 rodovias analisadas foram incluídas na categoria de maior risco: a SP-613, conhecida como Rodovia Arlindo Béttio, na região de Presidente Prudente, e a SPA-074, acesso localizado na região de Araraquara. Ambas são administradas pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER).
Entre as rodovias paulistas classificadas com elevado padrão de segurança, apenas uma é pública: a SP-091, também chamada Rodovia Francisco Von Zuben, que liga Campinas a Valinhos.
CNT defende ampliação dos investimentos em infraestrutura
Para a CNT, os resultados reforçam a influência direta da qualidade da infraestrutura viária na gravidade dos acidentes registrados no país.
“A terceira edição do painel confirma que a qualidade da infraestrutura viária impacta diretamente a gravidade dos acidentes”, diz a diretora-executiva da CNT, Fernanda Rezende.
“Embora o cenário nacional indique estabilidade, os resultados mostram que os avanços ainda são desiguais, reforçando a necessidade de ampliar investimentos em segurança viária, especialmente nas rodovias sob gestão pública”, afirma.




