Contexto e projeções para maio de 2026
A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) elevou sua projeção de exportação de soja para maio de 2026 para 15,9 milhões de toneladas, representando um crescimento de 12% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo a entidade, o volume pode variar entre 14,1 milhões e 15,9 milhões de toneladas, dependendo do ritmo operacional dos portos brasileiros e da dinâmica logística dos embarques.
A estimativa, revisada nesta semana, projeta ainda que o total de cereais exportados no mês pode atingir 19,2 milhões de toneladas, um avanço de 17% frente aos 16,4 milhões de toneladas registrados em maio de 2025. Este cenário reflete não apenas a demanda internacional por commodities agrícolas, mas também a capacidade produtiva do agronegócio brasileiro, que consolidou sua posição como principal fornecedor global de soja.
Diversificação dos embarques e commodities complementares
Além da soja, a Anec ajustou as projeções para outros produtos-chave do complexo agroexportador. O farelo de soja teve sua estimativa elevada para 2,87 milhões de toneladas, enquanto o milho atingiria 308 mil toneladas — um salto de 450% em relação a maio de 2025. O DDGS (Dried Distillers Grains with Solubles), subproduto da produção de etanol, também registrou crescimento expressivo, com projeção de 65 mil toneladas, um aumento de 340% no período.
O diretor técnico da Anec, Sérgio Mendes, destacou que o ritmo acelerado das exportações reflete a competitividade do Brasil no mercado global, especialmente em um contexto de restrições na produção de grãos em outras regiões, como a seca prolongada nos Estados Unidos e a instabilidade climática na Argentina. “O Brasil está suprindo não apenas a demanda chinesa, mas também de mercados secundários, como Espanha e Turquia, que têm aumentado suas importações”, afirmou Mendes.
Acumulado do ano: soja e milho lideram expansão
No acumulado de janeiro a abril de 2026, os embarques de soja somam 43 milhões de toneladas, um crescimento de 7% frente ao mesmo período de 2025. O volume total de cereais exportados no quadrimestre atingiu 57,8 milhões de toneladas, com destaque para o milho (5,43 milhões de toneladas), o farelo de soja (7,79 milhões) e o DDGS (437 mil toneladas).
Entretanto, um dos poucos pontos de queda no balanço foi o trigo, cujas exportações recuaram 35% no período, somando 970 mil toneladas. A redução está associada à menor oferta doméstica e à concorrência com grãos de outros países, como Rússia e Austrália, que mantiveram preços competitivos no mercado internacional.
Destinos e dependência do mercado chinês
A China permanece como o principal destino da soja brasileira, respondendo por 70% das importações do grão. Espanha e Turquia aparecem em seguida, com 4% cada. No acumulado do ano, os principais importadores de milho foram o Egito (27%), Vietnã (22%) e Irã (19%), enquanto a Indonésia (20%), Tailândia (10%) e Irã (10%) lideraram as compras de farelo de soja.
Segundo analistas do setor, a concentração da demanda chinesa — que adquiriu 65% da soja exportada pelo Brasil nos últimos 12 meses — representa tanto uma oportunidade quanto um risco. “A dependência excessiva de um único mercado pode expor o Brasil a flutuações cambiais e políticas comerciais adversas”, avalia a economista agrícola Marina Oliveira, da FGV Agro. Ela ressalta que, embora a China seja um parceiro estratégico, a diversificação de destinos é essencial para mitigar riscos.
Perspectivas e desafios para o segundo semestre
Para os próximos meses, a Anec projeta que o ritmo de exportações deve se manter elevado, impulsionado pela safra recorde de soja no Brasil — que atingiu 154 milhões de toneladas na temporada 2025/26 — e pela retomada da demanda global após a normalização das cadeias logísticas. No entanto, desafios como a volatilidade dos fretes marítimos, a adoção de barreiras não tarifárias por parte de alguns países e a pressão por práticas sustentáveis na produção agrícola podem influenciar o desempenho do setor.
O Brasil, que já é o maior exportador mundial de soja, enfrenta ainda cobranças crescentes por reduzir o desmatamento na Amazônia e no Cerrado, áreas diretamente afetadas pela expansão da fronteira agrícola. “O setor precisa equilibrar competitividade com responsabilidade socioambiental para manter sua credibilidade no mercado internacional”, alerta Oliveira.
Impacto na balança comercial e na economia brasileira
As exportações agrícolas representam cerca de 45% das vendas externas do Brasil, com a soja e seus derivados respondendo por mais de 30% desse montante. O crescimento projetado para maio de 2026 contribui para um superávit comercial recordista no primeiro quadrimestre do ano, que já superou US$ 30 bilhões — um aumento de 22% em relação a 2025.
Para o governo federal, os números da Anec reforçam a necessidade de investimentos em infraestrutura portuária e ferroviária, visando reduzir custos logísticos e aumentar a eficiência dos embarques. “A modernização dos corredores de exportação é fundamental para que o Brasil mantenha sua liderança no mercado global”, afirmou o ministro da Agricultura, Carlos Favaro.
Conclusão: um setor em expansão, mas atento aos riscos
O ajuste nas projeções da Anec para maio de 2026 confirma a resiliência do agronegócio brasileiro, mesmo em um cenário global de incertezas. Enquanto o país consolida sua posição como fornecedor essencial de commodities, o desafio agora é diversificar mercados, adotar práticas sustentáveis e investir em logística para garantir a continuidade desse crescimento.
Com a safra 2026/27 já em planejamento, especialistas preveem que o Brasil poderá superar novamente os 160 milhões de toneladas de soja produzidas, consolidando sua liderança. No entanto, a trajetória do setor dependerá não apenas de fatores climáticos e de mercado, mas também de políticas públicas que equilibrem produtividade e preservação ambiental.




