Contexto histórico: Da Guerra Fria ao século XXI
A América Latina sempre ocupou um lugar secundário nas estratégias geopolíticas das grandes potências, mas a ascensão da China como potência global e a retomada da política externa assertiva dos Estados Unidos sob Donald Trump reconfiguraram esse cenário. Desde a Doutrina Monroe (1823), que estabeleceu a hegemonia norte-americana no hemisfério, a região tem sido alvo de intervenções indiretas e projetos de influência. No entanto, a partir dos anos 2000, com o crescimento econômico chinês e a demanda por commodities, a América Latina passou a ser vista como um tabuleiro estratégico na disputa por recursos naturais e mercados.
O avanço chinês: Do boom das commodities à influência tecnológica
Desde o início do século XXI, a China emergiu como o segundo maior parceiro comercial da América Latina, superando a União Europeia em 2018. Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o intercâmbio comercial entre a China e a região cresceu 26 vezes entre 2000 e 2023, alcançando US$ 450 bilhões. Países como Brasil, Chile e Peru estruturaram suas economias em torno das exportações de soja, cobre e minério de ferro para o mercado chinês. Além do comércio, Pequim expandiu seus investimentos em infraestrutura, como portos, estradas e telecomunicações, muitas vezes por meio de empréstimos atrelados a acordos bilaterais.
O avanço chinês, no entanto, não se limita ao setor econômico. Em 2024, a China anunciou um plano de US$ 50 bilhões para expandir sua presença na região, incluindo a construção de uma rede de cabos submarinos para internet e a instalação de estações terrestres para o sistema BeiDou (o GPS chinês). Especialistas alertam que tais iniciativas podem criar dependência tecnológica, como ocorreu na África com as chamadas “armadilhas da dívida”.
A estratégia norte-americana: Tarifas, sanções e uma nova doutrina de segurança
Em resposta à crescente influência chinesa, o governo Trump revisou sua política para a América Latina em 2025, com a publicação da Estratégia de Segurança Nacional para o Hemisfério Ocidental. O documento, divulgado em outubro daquele ano, classificou a América Latina como uma “zona de competição geopolítica crítica” e estabeleceu como prioridades: conter a expansão chinesa, promover a soberania dos países da região contra “influências estrangeiras” e reafirmar a liderança dos EUA na segurança energética e logística.
Entre as medidas adotadas estão a imposição de tarifas a produtos latino-americanos, como ocorreu com o Brasil em 2024, quando a Casa Branca aplicou sobretaxas de 15% sobre aço e alumínio brasileiros. Além disso, os EUA têm pressionado países a excluir empresas chinesas de projetos de infraestrutura, como a construção de 5G, e aumentado a cooperação militar, com exercícios conjuntos na Colômbia e no Panamá. “Não vamos permitir que a China se transforme na principal potência na nossa região”, declarou o então secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em discurso na Organização dos Estados Americanos (OEA).
Casos emblemáticos: Brasil, Panamá e Argentina em foco
No Brasil, maior economia da região, a relação com a China é paradoxal. O país é o principal destino de investimentos chineses na América Latina (US$ 70 bilhões entre 2010 e 2023, segundo o Banco Mundial) e o maior comprador de produtos brasileiros (US$ 120 bilhões em 2023). No entanto, a postura de Trump, aliado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, levou a um endurecimento temporário das relações. Em 2024, os EUA impuseram tarifas de 25% sobre a soja brasileira, mas após negociações lideradas pelo presidente Lula, as taxas foram reduzidas para 10%. Durante a recente reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, o líder brasileiro declarou: “Precisamos que os Estados Unidos voltem a olhar para os nossos produtos com mais seriedade”.
Já no Panamá, o Canal do Panamá tornou-se o epicentro da disputa. Em 2025, o governo panamenho, pressionado pelos EUA, anunciou a revisão do contrato com a empresa chinesa Hutchison Whampoa, que administrava portos estratégicos no país. Além disso, Trump acusou Pequim de usar o canal para “espionar” navios norte-americanos. “O Panamá não pode ser refém de interesses estrangeiros”, afirmou o presidente Laurentino Cortizo. Em resposta, a China negou as acusações e ofereceu US$ 2 bilhões em investimentos para modernizar a infraestrutura portuária do país.
A Argentina, por sua vez, tem oscilado entre alianças. Enquanto o governo de Alberto Fernández buscou apoio chinês para refinanciar sua dívida (US$ 45 bilhões em swap de moedas), o novo presidente, Javier Milei, eleito em 2025, prometeu alinhar o país aos EUA, incluindo a adesão à Aliança do Pacífico e a renúncia ao Brics.
Minerais estratégicos: A nova fronteira da disputa
Um dos recursos mais cobiçados na região são as terras raras, essenciais para a indústria de alta tecnologia, como smartphones, veículos elétricos e armamentos. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desse mineral, atrás apenas da China, que domina 80% da produção global. Em 2025, o governo brasileiro anunciou um plano de US$ 5 bilhões para explorar suas reservas, mas deixou claro que não fechará acordos exclusivos com nenhum país. “Não temos preferência. Qualquer nação que queira investir conosco será bem-vinda”, declarou Lula em entrevista coletiva.
Os EUA, no entanto, têm pressionado o Brasil a restringir a venda das terras raras aos chineses. Em relatório do Departamento de Defesa norte-americano, divulgado em março de 2025, o Brasil foi incluído na lista de países onde Washington deve atuar para “evitar a dependência tecnológica da China”. Especialistas como o geólogo brasileiro Paulo Medeiros alertam: “Sem investimentos em tecnologia de extração, o Brasil corre o risco de repetir erros do passado, como na exploração do petróleo, onde perdemos controle sobre a cadeia produtiva”.
Perspectivas: Neutralidade ou alinhamento forçado?
A América Latina enfrenta um dilema: como tirar proveito da rivalidade entre EUA e China sem tornar-se refém de uma das potências? Países como México e Colômbia tentam manter uma política de equilíbrio, diversificando parceiros comerciais. O México, por exemplo, aumentou suas exportações para os EUA (65% do total) enquanto expandiu acordos com a União Europeia e a Ásia. Já a Colômbia, tradicional aliada dos EUA, tem recebido investimentos chineses em energia e infraestrutura sem romper com Washington.
No entanto, a pressão externa está crescendo. Em 2025, a China anunciou que poderia reduzir importações de commodities de países que apoiem sanções contra Moscou ou Pequim, enquanto os EUA ameaçaram cortar ajuda financeira a nações que aceitarem empréstimos chineses com cláusulas opacas. “A América Latina não pode escolher entre a China e os EUA, mas precisa escolher entre a estabilidade e o caos”, analisa a economista mexicana Valeria López, da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM).
Conclusão: Um tabuleiro sem vencedores claros
A disputa entre EUA e China na América Latina não tem vencedores óbvios. Enquanto a China oferece capital e mercado para as commodities regionais, os EUA garantem segurança e acesso a tecnologias avançadas. Para os países latino-americanos, a melhor estratégia pode ser a diversificação, como sugeriu o presidente equatoriano Guillermo Lasso em 2024: “Não podemos depender de um único parceiro. Precisamos de um menu de opções”.
Contudo, o risco de uma fragmentação regional é real. Se a rivalidade entre as duas potências se intensificar, a América Latina pode se tornar um campo de batalha onde as decisões são tomadas em Washington ou Pequim, não em Brasília, Cidade do México ou Buenos Aires. O futuro da região, assim, depende não apenas da capacidade de seus líderes negociarem, mas também da habilidade de transformar a geopolítica em desenvolvimento sustentável.




