Certo dia, li uma frase que, à primeira vista, parecia simples:
“Chega uma fase da vida em que o homem começa a perceber que venceu pouco quando venceu sozinho.”
Li e segui adiante. Mas há frases que não terminam quando acabamos de lê-las. Elas permanecem em algum lugar dentro de nós, esperando o momento certo para revelar o que realmente significam.
Foi o que aconteceu comigo.
No dia 27 de setembro de 2026, durante um retiro, participei de uma dinâmica em que, por alguns instantes, deveríamos ser mentores uns dos outros.
Conversando com aquele que, naquele momento, era o meu “mentor”, não sei como nem por que, aquela frase surgiu em minha mente.
E eu a pronunciei.
Naquele instante, porém, ainda não havia compreendido por que ela tinha vindo.
A dinâmica continuou.
Vieram as conversas, as reflexões e, pouco antes de receber as palavras do meu verdadeiro mentor, alguma coisa aconteceu dentro de mim.
Como dizemos na linguagem popular, “caiu a ficha”.
Percebi que aquele retiro era muito mais do que uma sequência de dinâmicas.
O canto dos pássaros, o zumbido das cigarras, o silêncio, o vento e a natureza ao redor pareciam fazer parte de uma mesma mensagem.
Senti-me em sintonia não apenas com a natureza material, mas também com algo mais profundo, que minha sensibilidade espiritual conseguia perceber.
E então comecei, quase por intuição, a rever minha vida.
Tenho 81 anos. É muito tempo para ser colocado diante de nós em alguns instantes. Mas, quando nos recolhemos para dentro de nós mesmos, o tempo parece perder sua medida.
Vi-me criança.
Percebi que não nasci sozinho.
Havia meus irmãos, nossas brincadeiras, nossas descobertas e os primeiros aprendizados.
Depois veio a mudança de Piracanjuba para Goiânia, em 1957, abrindo uma nova etapa da minha vida.
Vieram os estudos e, em 1964, o início do meu trabalho na Cooperativa.
Vieram experiências, responsabilidades, amizades e aprendizados.
Depois, outras lembranças foram surgindo: meu namoro com Itacira, o casamento, os filhos, a família que construímos.
Lembrei-me também do meu primeiro carro, um Fusquinha azul-claro, uma pequena conquista que hoje vale muito mais pela lembrança do que pelo objeto.
Vieram as chácaras, algumas conquistas que não consegui conservar, e também os erros, as perdas e os recomeços.
Tudo passou diante de mim.
E então me perguntei:
Por que todas essas lembranças estão voltando agora?
Foi quando aquela espécie de voz silenciosa que me acompanhava pareceu responder:
“É para você perceber que não cresceu sozinho.”
Naquele momento, compreendi.
Eu não nasci sozinho.
Não cresci sozinho.
Não aprendi sozinho.
Não trabalhei sozinho.
Não construí minha família sozinho.
E não cheguei aos 81 anos sozinho.
Sempre houve alguém.
Um pai, uma mãe, um irmão, um amigo, um professor, um colega de trabalho, uma esposa, um filho.
Alguém que me ensinou alguma coisa, ofereceu uma oportunidade, estendeu a mão, deu uma palavra de incentivo ou até me contrariou, obrigando-me a aprender.
E houve também a própria vida, com seus encontros e desencontros, suas perdas e recomeços.
Percebi, então, que até aquilo que eu imaginava ter conquistado exclusivamente com meu esforço trazia, escondida, a participação de muitas mãos.
Talvez seja essa uma das grandes lições que o tempo nos oferece.
Durante boa parte da vida, pensamos que vencer é chegar.
Conquistar.
Construir.
Possuir.
Mas chega uma hora em que começamos a fazer outras perguntas:
Quem caminhou comigo?
Quem me ajudou a chegar até aqui?
E a quem eu também consegui ajudar?
Hoje, olhando para os meus 81 anos, já não vejo minha história apenas como uma sequência de conquistas pessoais.
Vejo uma história compartilhada.
Vejo pessoas que me ajudaram a ser quem sou e pessoas que, de alguma maneira, também receberam algo de mim.
E talvez seja assim que a vida nos faça evoluir: não apenas pelo que conseguimos conquistar para nós, mas pelo que conseguimos oferecer aos outros.
Por isso, aquela frase que um dia li e que, no retiro, surgiu inesperadamente em meus lábios, hoje tem para mim um significado muito maior:
“Chega uma fase da vida em que o homem começa a perceber que venceu pouco quando venceu sozinho.”
Agora eu entendo.
Se alguma vitória existe na minha caminhada, ela não é somente minha.
Ela pertence também a todos aqueles que, de alguma maneira, colocaram seus passos ao lado dos meus.
Porque hoje sei que a maior vitória não é chegar sozinho ao alto.
É chegar e reconhecer quantas mãos nos ajudaram a subir e quantas outras nós também conseguimos ajudar pelo caminho.





