Em setembro, participei de mais um retiro espiritual promovido pela Casa Verde, onde estudo e trabalho.
Como acontece todos os anos, tive a oportunidade de interromper, por algumas horas, a pressa da vida e me recolher a um lugar tranquilo e silencioso.
Um lugar onde pudesse ouvir uma voz que, muitas vezes, o barulho do cotidiano não me deixa escutar: a minha própria consciência.
O encontro aconteceu na Chácara Emaús, na saída para Aragoiânia.
Cheguei cedo e, logo na entrada, encontrei um pequeno corredor de plantas. Espalhadas pelas folhas, havia borboletas coloridas, azuis, amarelas e verdes.
Olhei rapidamente e, por um instante, pensei que fossem verdadeiras.
Não eram.
Talvez tenha sido ali, antes mesmo de começar o retiro, que recebi minha primeira lição: algumas coisas parecem reais antes que aprendamos a olhar com mais atenção.
No salão de oração, participei da abertura dos trabalhos.
Depois, fui conduzido a uma sala onde nos aguardavam algumas atividades.
Sobre uma mesa, encontrei uma pequena caderneta.
Na capa, havia uma borboleta e, ao lado dela, o tema daquele dia:
“Em tudo dai graças.”
Na primeira página, uma pergunta simples:
“Qual o sentimento despertado neste momento?”
Não precisei pensar muito. Escrevi duas palavras:
Paz e agradecimento.
Pouco depois, percebi que talvez elas fossem suficientes para resumir todo o meu domingo.
Recebi também um bombom acompanhado de uma pequena mensagem e de uma imagem de borboleta.
A orientação era separar o papel e colá-lo na primeira página da caderneta.
A mensagem dizia:
“O amor que você oferece dá sentido à sua vida.”
Enquanto cumpria a tarefa, fiquei pensando que a vida também é assim.
Recebo pequenas mensagens pelo caminho, aparentemente simples, mas que, quando paro para observá-las, revelam muito sobre aquilo que estou vivendo.
Até o bombom, ainda em sua embalagem de fábrica, parecia participar daquela conversa. Nela, estava escrito:
“Bora viver um sonho?” E eu fui.
Dessa vez, meu sonho era olhar para dentro de mim.
Recebi uma borboleta de papel e fui convidado a escrever nela um pouco de quem sou.
No corpo, deveria registrar o dom que mais reconhecia em mim.
Escrevi: Agradecimento.
Ao escrever essa palavra, percebi que ela carregava uma vida inteira.
Sou grato por ter chegado até aqui, pela esposa maravilhosa que a vida me concedeu, pelos filhos que se tornaram homens e mulheres de bem, pelos meus pais e irmãos e por todos aqueles com quem construí laços de amor e convivência.
Sou grato pelo trabalho que tive até a aposentadoria, pelos amigos que encontrei pelo caminho, especialmente aqueles com quem compartilhei tantos momentos pescatórios, e por ainda estar ativo, lúcido e disposto a continuar aprendendo.
Sou grato até por poder escrever.
Porque escrever, para mim, não é apenas colocar palavras no papel.
É conversar comigo mesmo, revisitar lembranças e fazer perguntas que talvez eu nunca tivesse coragem de formular em silêncio.
É compreender um pouco melhor quem fui, quem sou e quem ainda posso ser.
Na asa esquerda da borboleta, escrevi aquilo que me sustentou durante a caminhada: persistência, fé e vontade de continuar caminhando.
Na asa direita, registrei aquilo que ainda desejo desenvolver:
Paciência, flexibilidade e disciplina.
Ao fazer isso, reconheci uma verdade que a vida vem me ensinando: não sou uma obra terminada.
Ainda tenho muito a aprender, uma asa a fortalecer, uma aresta a aparar e virtudes a conquistar.
Nas antenas da borboleta, registrei aquilo que me liga a Deus: a fé e a confiança na espiritualidade.
Depois, veio uma pergunta sobre propósito.
Minha resposta foi natural:
Continuar lendo, estudando e escrevendo minhas crônicas.
Enquanto puder aprender, estarei caminhando.
Enquanto puder escrever, continuarei conversando com a vida e transformando minhas experiências em aprendizado.
Em seguida, fui convidado a refletir sobre os talentos responsáveis pelos momentos felizes que vivi.
Respondi: União e pertencimento.
Reconheço a união com minha família de origem, com meus pais e irmãos e com a família que construí.
E reconheço o pertencimento porque não me sinto vagando sozinho pela existência.
Faço parte de uma família, de um grupo de amigos, de uma comunidade espiritual e de uma humanidade.
Não como quem possui ou é possuído, mas como quem participa, compartilha e comunga.
Mais adiante, fui convidado a refletir sobre três palavras: grandeza, pequenez e desafio.
Na grandeza, reconheci uma característica que marcou minha vida: a disposição para orientar.
Sempre gostei de aconselhar, ajudar e mostrar caminhos.
Entretanto, ao olhar para essa característica com mais honestidade, também encontrei minha pequenez.
Às vezes, aquilo que eu chamava de conselho se aproximava de uma imposição.
Eu queria que o outro compreendesse o que eu dizia e, talvez, seguisse o caminho que considerava correto.
Hoje, compreendo melhor.
Cada pessoa é um universo, com sua história, suas experiências, suas tendências, suas dores e suas próprias escolhas.
Ninguém é igual a ninguém.
Aprendi que aconselhar verdadeiramente talvez não seja dizer ao outro qual caminho seguir.
Talvez seja apenas oferecer uma luz e deixá-lo escolher onde colocar os pés.
Foi então que reconheci um dos meus maiores desafios: aprender a olhar o mundo pelos olhos do outro e exercitar a empatia.
Preciso me colocar no lugar do outro, tentar compreender sua dor, acolher sua alegria e respeitar suas escolhas.
Ajudar quando puder, dentro das minhas possibilidades físicas e morais, sem acreditar que tenho todas as respostas.
Talvez seja justamente essa a asa que mais preciso fortalecer.
No final, participei de uma dinâmica interessante.
Em duplas, cada um deveria ser, por alguns instantes, o mentor do outro.
Enquanto conversávamos, imaginei o que meu mentor talvez me dissesse:
“Fique tranquilo. Essa experiência está sendo positiva. Você está aproveitando. Continue.”
E talvez fosse exatamente isso que eu precisava ouvir.
Continue. Não pare. Ainda há caminho. Há aprendizado. Há espaço para mudar.
Ao final daquele domingo, voltei meus pensamentos à pequena borboleta que havia me acompanhado desde a entrada no corredor.
As borboletas eram de papel.
O sonho estava escrito em um envelope.
O bombom já havia desaparecido.
Mas alguma coisa era verdadeira: a mensagem, a reflexão, o sentimento e, sobretudo, a transformação que pode acontecer dentro de nós quando decidimos olhar para a própria vida com sinceridade.
A borboleta passa por uma transformação antes de ganhar o céu.
Eu também estou em transformação.
Talvez a existência seja essa longa passagem entre aquilo que fui e aquilo que ainda posso ser.
Depois de tantos anos, começo a compreender que crescer espiritualmente não significa chegar a algum lugar.
Significa continuar aprendendo, amando, perdoando, servindo e, acima de tudo, agradecendo.
Por isso, se alguém me perguntasse hoje o que trouxe daquele retiro, talvez eu não falasse das dinâmicas, das perguntas ou das respostas.
Mostraria apenas uma pequena borboleta.
E diria:
“Trouxe comigo a certeza de que ainda tenho asas para fortalecer.”
E, enquanto houver vida, continuarei tentando voar.





