Janeiro caminha para o fim com a delicadeza de quem sabe que carrega algo importante.
Há meses que passam depressa.
Janeiro não.
Ele desacelera, respeita a memória e avisa, aos poucos, que uma data especial se aproxima.
O dia 26 não chega de repente.
Ele se anuncia em silêncios mais longos, em gestos simples, em olhares que dispensam explicações.
É meu aniversário de casamento.
Um marco que não pede festa ruidosa, mas presença, recolhimento e gratidão.
Cinco décadas e meia juntos.
Dito assim, parece muito.
E é.
Antes mesmo de pensar em números ou datas, uma lembrança antiga se impõe.
Uma coincidência dessas que só ganham peso com o tempo.
A mãe de minha esposa chamava-se Arlinda Garcia.
A minha mãe também: Arlinda Garcia.
Nenhum parentesco.
Nenhuma ligação familiar.
Apenas dois destinos que, antes de se encontrarem, já traziam o mesmo nome na origem.
Na juventude, soava curioso.
Hoje, soa como sinal.
Um desses avisos discretos que a vida deixa pelo caminho.
Foi nesse clima, entre lembranças e pausas, que, numa tarde comum, algo começou a se revelar.
Uma tarde quieta.
Daquelas em que o tempo parece caminhar devagar para não atrapalhar o pensamento.
Sentei-me à escrivaninha sem grandes intenções.
Lápis na mão.
Papel à frente.
E surgiu um impulso raro: olhar para os números da minha própria vida.
Não por crença.
Nem por cálculo exato.
Apenas curiosidade.
Às vezes, o mistério chega assim, sem avisar.
Anotei quase distraído:
15 – o dia em que nasci.
12 – o mês da chegada.
1944 – o ponto de partida.
Somei sem esperar nada.
Mas a resposta veio.
15 + 12 + 1944 = 1971.
O lápis parou.
O pensamento também.
1971 não era um número qualquer.
Era o ano do meu casamento.
O ano em que a vida mudou de direção.
O início de uma história escrita a quatro mãos.
Ali, diante de uma conta simples, entendi algo desconcertante:
os números pareciam saber mais de mim do que eu mesmo.
Coincidência?
Talvez.
Mas há coincidências que não passam rápido.
Elas ficam.
Encostam no peito.
Pedem silêncio.
Fiquei pensando em quantas vezes o acaso tenta nos dizer algo e não escutamos.
Quantos sinais ignoramos enquanto seguimos apressados, ocupados demais para perceber que a vida conversa conosco o tempo todo, em detalhes, encontros e desvios sutis.
Meu nascimento já trazia pistas discretas.
O 15, ligado à harmonia e às transformações.
O 12, símbolo de ciclos completos.
E 1944, que reduzido revela o 18, número da intuição e da espiritualidade.
Curioso notar:
1971 também soma 18.
O ano do casamento.
O ano da virada.
O ano em que aprendi que caminhar junto muda tudo.
O plano inicial era casar em 15 de dezembro de 1970, dia do meu aniversário.
Duas celebrações em uma só data.
Parecia perfeito.
Mas a vida, que nunca erra o compasso, interveio.
A casa não ficou pronta.
O chão ainda precisava de tempo.
E nós, sem compreender, adiamos o sonho.
O casamento aconteceu em 26 de janeiro de 1971.
Hoje sei: não foi atraso.
Foi ajuste fino.
Foi o tempo colocando cada coisa no lugar certo.
Foi a vida dizendo, em voz baixa:
“Confie. O amor tem seu próprio relógio.”
O tempo passou.
Passou bonito.
Passou cheio de histórias.
Dessa união nasceram três filhos.
Três caminhos.
Três formas de o amor continuar andando pelo mundo.
Eles não vieram apenas depois.
Vieram para ampliar o sentido de tudo.
Ensinar responsabilidade, paciência, renúncia e esperança.
São a prova viva de que aquele “sim”, dito em 1971, floresceu.
No dia 26 de janeiro de 2026, eu e Itacira completamos 55 anos de união.
Não celebramos apenas o tempo que passou.
Celebramos o que permanecemos sendo um para o outro.
Quando o dia amanhece, não são necessárias promessas novas.
Basta um olhar cúmplice.
Um silêncio compreendido.
A certeza de que seguimos juntos.
Enquanto escrevo, o sol se despede tingindo o céu de dourado.
E o que sinto não é saudade.
É gratidão.
Porque, às vezes, os números não fazem contas.
Eles fazem sentido.




