Minha carretinha é pequena, feita de ferro simples e robusto.
Não tem brilhos modernos, nem pintura vistosa.
Mas, para mim, é uma relíquia de afeto, um pedaço da minha alma com rodas.
Ano de 1994.
E lá embaixo, quase escondido, o número 003G094.
Como se fosse um sussurro do tempo, uma senha secreta da minha própria história.
Essa pequena companheira já desbravou caminhos hoje guardados no coração.
Cortou as terras generosas de Silvânia, passeou pelos verdes encantados de Claudinápolis e dançou na poeira leve dos trajetos que levavam ao nosso querido Rio do Peixe.
Ah, o Rio do Peixe…
Quantas manhãs douradas, com o sol refletido em suas águas mansas.
Quantas noites bordadas de estrelas, de silêncio e de esperança.
Tudo começou com a velha e charmosa Caravan cor ouro.
Em 1992, ela chegou, e com ela nasceu o sítio em Silvânia.
Forte, espaçosa, resistente, parecia feita sob medida para as aventuras que viriam.

Dois anos depois, veio a carretinha.
O par perfeito.
Juntas, marcaram uma era dourada: palco das temporadas no sítio e das pescarias que ainda ecoam na memória.
Cada viagem com a carretinha era um capítulo inesquecível.
Cada acampamento, uma festa da simplicidade.
Cada pescaria, um reencontro com o menino que ainda vive em mim.
Ver meus filhos correndo entre as árvores, banhando-se nas águas rasas, rindo com a alma leve…
Enquanto o cheiro do peixe assando se misturava ao vento.
Era isso: a essência da felicidade.
Minha carretinha não carregava apenas tralhas de pesca.
Ela transportava sonhos, promessas, esperanças.
Foi testemunha de gargalhadas ao redor da fogueira e, em silêncio, guardou lágrimas discretas… escondidas entre o som da chuva fina e o pulsar do coração.
Hoje, repousa num canto qualquer.
Não viaja mais como antes, mas permanece firme, guardando memórias.
Às vezes penso que ainda espera um chamado.
Talvez uma última jornada.
O mundo mudou.
As chácaras se transformaram, não mais existem.
A vida deu voltas, algumas acertadas, outras tão doloridas que ainda me faltam palavras.
Houve decisões apressadas.
Despedidas difíceis.
Mas a carretinha ficou.
Fiel. Silenciosa.
Quando a olho, não vejo um ferro velho.
Vejo a infância, a juventude, a liberdade.
Sinto o cheiro da terra molhada, o gosto do peixe na brasa, o silêncio profundo das madrugadas no mato.
Outro dia, reparei de novo no número 003G094.
E me peguei somando os dígitos, como quem busca sentido nas pequenas coisas.
Talvez fosse apenas saudade.
Talvez fosse o tempo me chamando de volta.
E me vi sonhando.
Não com pressa, nem com exigência.
Mas com ternura.
Aos 81 anos, não sei se o corpo ainda resiste a uma vida de roça.
Mas a alma… essa sim ainda deseja.
Se não for para recomeçar, que seja apenas para estar.
Para sentir o cheiro do café coado.
Para ouvir a varanda amanhecer devagar.
Porque, enquanto houver lembranças, haverá um caminho de volta.
Nem que seja apenas dentro de mim.
E mesmo que a sorte nunca bata à minha porta, sei que já ganhei.
Ganhei um baú de memórias que ninguém pode roubar.
E nele, entre tantas histórias, está a carretinha, minha velha companheira, a me lembrar todos os dias que sonhar é gratuito.
E que, no fundo, sempre se pode voltar.




