Envelhecimento da população, avanço da escolaridade, digitalização e novos formatos de contratação ajudam a explicar taxa média de 5,6% em 2025, mas especialistas alertam para efeitos como precarização e perda de proteção social
O Brasil encerrou 2025 com pouco mais de 6 milhões de pessoas sem ocupação, o menor contingente desde o início da série histórica da Pnad Contínua, do IBGE, em 2012. Ao longo do ano, foram abertas cerca de 1,7 milhão de vagas formais e informais, movimento que levou a taxa média anual de desemprego a 5,6%, o nível mais baixo já registrado.

O resultado ocorreu em um cenário de juros elevados, que costumam frear investimentos e expansão de negócios. Ainda assim, a economia mostrou resiliência, com crescimento estimado em torno de 2% no ano passado, segundo projeções de analistas. Para economistas, no entanto, o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) não explica sozinho a manutenção de um mercado de trabalho aquecido por período prolongado.
Especialistas apontam um conjunto de transformações estruturais — demográficas, educacionais, tecnológicas e institucionais — que vêm alterando a dinâmica da ocupação no país. Esses fatores ampliam oportunidades e flexibilizam relações de trabalho, mas também levantam preocupações com informalidade, instabilidade de renda e menor cobertura de direitos.
Demografia reduz pressão sobre o desemprego
O envelhecimento da população brasileira é um dos vetores centrais dessa mudança. Ao mesmo tempo em que novas vagas são abertas, diminui o grupo de pessoas em idade de trabalhar que está ocupado ou à procura de emprego, base de cálculo da taxa de desocupação.
Economistas destacam que o avanço da idade média da população resulta em maior saída de trabalhadores do mercado, sem reposição proporcional por jovens. Estimativas indicam que, se a estrutura demográfica fosse semelhante à de 2012, o desemprego poderia ter sido significativamente mais alto em 2025.
Também há indícios de adiamento da entrada dos jovens no mercado e de aumento das aposentadorias nos últimos anos, em um contexto que envolve a reforma da Previdência e os impactos da pandemia. Para empresas, esse cenário se traduz em maior dificuldade para preencher vagas e necessidade de investir mais em qualificação e retenção de profissionais, inclusive os mais experientes.
Avanço da escolaridade altera perfil da força de trabalho
A melhora gradual dos indicadores educacionais também influencia o mercado de trabalho. Dados do IBGE mostram crescimento na taxa de conclusão do ensino médio entre jovens, além de maior acesso ao ensino superior. Economistas observam que o aumento da escolaridade contribui não apenas para reduzir o desemprego, mas também para elevar a remuneração média e o retorno por ano de estudo.
Ao mesmo tempo, cresce a parcela de jovens que opta por prolongar os estudos e adiar a inserção profissional, movimento observado em diferentes faixas de renda. A menor participação desse grupo na força de trabalho afeta diretamente o cálculo da taxa de desocupação e altera o perfil dos que buscam emprego.
Digitalização amplia vagas e muda vínculos
A aceleração da digitalização após a pandemia consolidou novas frentes de trabalho, especialmente em tecnologia, comércio eletrônico e serviços baseados em plataformas digitais. Profissionais de áreas como desenvolvimento de sistemas relatam maior oferta de oportunidades, inclusive em modelos remoto e híbrido.
O avanço tecnológico, porém, veio acompanhado da expansão de contratos como pessoa jurídica (PJ), em detrimento do regime tradicional da CLT. Embora esses formatos possam oferecer maior flexibilidade, especialistas alertam para a perda de benefícios trabalhistas e maior instabilidade de renda.
Plataformas digitais absorvem trabalhadores, mas com riscos
O trabalho mediado por aplicativos de transporte e entrega se tornou uma alternativa para pessoas com maior dificuldade de acesso ao emprego formal. Esses trabalhadores são contabilizados como ocupados nas estatísticas oficiais, o que contribui para a queda da taxa de desemprego.
Economistas observam que esse modelo funciona como uma válvula de escape em momentos de demissão, permitindo rápida reinserção produtiva. Por outro lado, relatos frequentes apontam jornadas extensas, pressão por desempenho, ausência de garantias como férias e 13º salário, além de riscos elevados de acidentes e baixa contribuição à Previdência.
A falta de proteção social e a exposição a situações de violência e insegurança no trânsito estão entre as principais preocupações levantadas por especialistas, que defendem o avanço da regulamentação dessas atividades.
Regras trabalhistas e empreendedorismo individual
Mudanças nas normas trabalhistas na última década também são citadas como fator de estímulo à ocupação. A redução de custos e riscos jurídicos para as empresas e a criação de modalidades mais flexíveis de contratação ampliaram as formas de vínculo.
Paralelamente, a simplificação de processos e a digitalização de serviços impulsionaram a abertura de empresas, com destaque para o crescimento dos microempreendedores individuais (MEIs). Esse movimento diversifica as formas de inserção no mercado, mas reforça o debate sobre limites entre autonomia, informalidade e proteção ao trabalhador.
Para analistas, o Brasil pode estar diante de um período prolongado de desemprego baixo nas estatísticas, sustentado por essas transformações estruturais. O desafio, contudo, será conciliar dinamismo econômico com qualidade das ocupações e segurança social.



