Presidente francês afirma que o continente deve se preparar para novas pressões de Washington e diz que impasse envolvendo a Groenlândia ainda está longe do fim
O presidente da França, Emmanuel Macron, acusou nesta terça-feira (10) o governo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de adotar uma estratégia abertamente contrária aos interesses europeus e de trabalhar pelo “desmembramento da União Europeia”. Segundo ele, os países do bloco precisam se antecipar a novas investidas de Washington, inclusive no campo geopolítico, e não considerar encerrada a crise diplomática envolvendo a Groenlândia.
As declarações foram feitas em uma extensa entrevista concedida a veículos europeus de referência, como Financial Times e Le Monde, às vésperas da cúpula do Conselho Europeu, marcada para quinta-feira (12).
Coordenação como resposta estratégica
Na avaliação de Macron, a União Europeia precisa reagir de forma conjunta para fortalecer sua competitividade global — não apenas diante da China, mas também frente a parceiros históricos do pós-Segunda Guerra Mundial. O presidente francês defendeu que o bloco aproveite o chamado “momento Groenlândia”, em alusão às recentes manifestações de interesse de Trump sobre a ilha autônoma vinculada ao Reino da Dinamarca.
“Quando há um ato claro de agressão, o que não devemos fazer é abaixar a cabeça ou buscar um acordo. Tentamos essa estratégia por meses e ela não está funcionando”, afirmou Macron. Ele também advertiu que o atual foco de Trump no Irã não representa uma redução das tensões com a Europa.
Retórica mais dura no cenário internacional
Alvo frequente de críticas do republicano, Macron foi citado em documentos estratégicos dos Estados Unidos como exemplo de “líder fraco”. Enfrentando desgaste político interno e já em seu segundo e último mandato, o presidente francês tem adotado um tom mais incisivo na política externa.
Macron antecipou ainda um novo eixo de confronto com Washington: a regulação das grandes empresas de tecnologia. Segundo ele, as normas europeias sobre proteção de dados e concorrência devem provocar retaliações comerciais por parte dos EUA. “Os EUA vão nos atacar no campo da regulação digital”, declarou.
Pressões econômicas e disputa monetária
No plano econômico, Macron avaliou que a Europa se encontra espremida entre a política comercial de Trump e a ascensão chinesa. Voltou a criticar a dependência do dólar e defendeu uma ampliação da emissão de títulos em euro para financiar a competitividade industrial do bloco, ainda que reconheça a resistência de países com políticas fiscais mais rígidas.
O presidente francês reiterou sua oposição ao acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que, segundo ele, representa riscos para o agronegócio da França.
Defesa europeia e impasses na Otan
Até agora, o debate sobre maior autonomia europeia vinha se concentrando na área de defesa, em meio ao distanciamento de Trump em relação à Otan. O cenário impulsionou programas de rearmamento, especialmente na Alemanha, mas também acentuou divergências internas. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, chegou a afirmar que a Europa precisa “parar de sonhar” com uma estrutura de defesa independente dos Estados Unidos.
Nesse contexto, a França decidiu interromper temporariamente o avanço do projeto de um caça de sexta geração desenvolvido em parceria com Alemanha e Espanha, após disputas industriais. Macron, porém, afirmou que o programa “não está morto”.
Reaproximação cautelosa com Moscou
Macron também busca construir uma margem própria de atuação diplomática em relação à guerra na Ucrânia, hoje fortemente influenciada pela agenda de Trump. O presidente francês defendeu recentemente a retomada de canais diretos com a Rússia e enviou seu principal diplomata a Moscou.
O Kremlin confirmou os contatos nesta terça-feira. “Houve contatos que, se necessário, podem ajudar a restabelecer rapidamente um diálogo em alto nível”, afirmou o porta-voz Dmitri Peskov. Macron foi um dos líderes europeus que mais se empenharam em evitar a invasão russa de 2022, mas rompeu o diálogo com Vladimir Putin após o início do conflito.



