Mesmo ocupando 11 ministérios, União Brasil, PSD, MDB, PP e Republicanos não garantem apoio a Lula em 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reafirmou sua disposição de disputar um quarto mandato em 2026 ao se declarar “candidatíssimo” durante jantar com deputados no dia 23 de abril. A fala foi interpretada no Congresso como uma tentativa de estancar rumores sobre um possível encerramento precoce de seu ciclo político. No entanto, o cenário entre os partidos que compõem sua base revela um ambiente de instabilidade e incerteza.
Base governista concentra ministérios, mas alimenta dúvidas sobre apoio em 2026
Os cinco partidos que integram a coalizão de Lula — União Brasil, PSD, MDB, PP e Republicanos —, responsáveis por 11 ministérios, não garantem apoio irrestrito à reeleição do petista. Pior: muitos de seus integrantes demonstram simpatia pela eventual candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo. Juntas, essas legendas reúnem 240 deputados, quase metade da Câmara.
Reforma ministerial emperrada ilustra fragilidade política
Um dos sintomas da dificuldade de articulação é a reforma ministerial prometida pelo Planalto, que se arrasta há mais de seis meses. Após as eleições municipais de 2024, aliados cobravam uma reorganização dos cargos para fortalecer a base rumo à campanha presidencial de 2026. No entanto, até agora, apenas mudanças internas no próprio PT e substituições pontuais — como Carlos Lupi (Previdência) e Juscelino Filho (Comunicações) — ocorreram.
Um episódio recente ilustra o grau de desarticulação: a nomeação frustrada do deputado Pedro Lucas Fernandes (União Brasil-MA), que, após ser indicado para um ministério, recuou diante da resistência interna no próprio partido.
Incerteza política afeta todos os partidos da aliança
Mesmo com espaço no governo, os dirigentes e líderes partidários ouvidos evitam comprometer apoio a Lula em 2026. Ao contrário, cresce a avaliação de que uma candidatura de Tarcísio pode unificar o centro e a direita contra o PT.
O presidente do PSD, Gilberto Kassab, símbolo dessa “base infiel”, exemplifica essa dualidade. Embora seu partido controle três ministérios, Kassab é um entusiasta declarado do governador paulista.
Lula depende da manutenção da aliança, mesmo que desconfortável
Apesar das tensões, a expectativa é de que as legendas mantenham a relação com o governo até, pelo menos, a proximidade das eleições. A explicação é pragmática: abandonar os ministérios e o acesso à máquina federal antes do tempo seria visto como um custo político alto. Além disso, o PT não tem força suficiente no Congresso para abrir mão dessas alianças, mesmo diante da desconfiança.
O prazo para definições mais concretas sobre 2026, segundo fontes ouvidas, vai até outubro deste ano ou o primeiro semestre de 2026.
Variáveis que podem mudar o tabuleiro eleitoral
O cenário futuro depende de várias incógnitas: Tarcísio confirmará candidatura à Presidência ou buscará a reeleição em São Paulo? Jair Bolsonaro (PL) conseguirá reverter sua inelegibilidade? Se não, apoiará Tarcísio ou lançará um de seus filhos, como Flávio ou Eduardo Bolsonaro?
Outros fatores como a evolução da economia, inflação de alimentos e índices de popularidade de Lula também serão decisivos. Embora tenha se declarado “candidatíssimo”, o presidente já reconheceu em fevereiro que sua idade — terá 81 anos em 2026 — pode ser um fator limitante.
União Brasil simboliza as contradições da base de apoio
Entre as legendas que geram maior instabilidade, o União Brasil é emblemático. Resultado da fusão entre DEM e PSL — históricos adversários do PT —, o partido se divide em três alas: uma próxima ao Planalto, outra alinhada ao bolsonarismo e uma terceira de perfil independente, liderada por figuras como o governador Ronaldo Caiado (GO), pré-candidato à Presidência.
Recentemente, o União Brasil firmou federação com o PP, outro partido da base ministerial, mas a união foi marcada por discursos de oposição ao governo federal, evidenciando o distanciamento.
PSD e MDB também mantêm cautela
O PSD e o MDB, igualmente contemplados com três ministérios cada, têm posturas mais estáveis, mas não oferecem garantias eleitorais a Lula. O MDB, por exemplo, é um aliado histórico ambíguo: abriga governadores e senadores próximos ao PT, como Helder Barbalho (PA) e Renan Calheiros (AL), mas também mantém alas fortes de oposição no Sul e Sudeste. Além disso, foi protagonista no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016, o que não é esquecido dentro do petismo.
PP e Republicanos reforçam a tensão na coalizão
O PP, comandado por Ciro Nogueira (PP-PI), administra a Caixa Econômica Federal e o Ministério dos Esportes, mas integrantes do partido consideram esses espaços insuficientes diante do peso da legenda no Congresso. No Republicanos, a ligação direta com Tarcísio de Freitas e com a Igreja Universal do Reino de Deus — ambos bastiões do antipetismo — também dificulta a consolidação de apoio à reeleição de Lula.
Embora existam lideranças mais próximas ao governo no Nordeste, a resistência entre deputados do Sul e Sudeste permanece elevada.