Declarações do presidente dos EUA após a captura de Nicolás Maduro indicam tentativa de controle político e econômico, com foco no petróleo, e levantam dúvidas jurídicas e riscos de escalada militar
As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sábado, sinalizando que Washington pretende “governar” a Venezuela por tempo indeterminado, abriram um capítulo delicado da política externa americana e colocaram o país no centro de uma estratégia explícita de influência política e domínio econômico sobre uma nação de cerca de 30 milhões de habitantes.
A fala ocorreu em Mar-a-Lago, horas depois da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma operação conduzida por forças americanas. Diante de jornalistas, Trump afirmou que Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente do regime chavista, permaneceria no comando do país enquanto “fizesse o que queremos”, numa declaração que reforçou a percepção de ingerência direta dos Estados Unidos nos rumos da Venezuela.
Reação interna e contestação do poder
A resposta de Delcy Rodríguez foi imediata. Em pronunciamento nacional, ela acusou Washington de agir sob pretextos falsos, classificou a operação como uma invasão e reiterou que Maduro continuava sendo o chefe de Estado legítimo do país. “O que está sendo feito com a Venezuela é uma barbárie”, afirmou.
Apesar da contradição pública, o governo americano evitou reconhecer qualquer ruptura formal. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, adotou cautela ao comentar o impasse. Em entrevista ao The New York Times, afirmou que os próximos passos dependeriam das atitudes do governo venezuelano. “Vamos tomar decisões com base nas ações deles nos próximos dias e semanas”, disse, acrescentando que o país teria uma “oportunidade histórica” de promover mudanças.
Tutela sem nome e ameaça de força
Trump e seus assessores têm evitado o termo “ocupação”, associado a experiências como o Iraque ou o Japão do pós-guerra. Em vez disso, descrevem um arranjo transitório no qual os Estados Unidos definiriam diretrizes políticas e administrativas, esperando que um governo interino as execute sob a ameaça de nova intervenção militar.
O próprio presidente deixou claro que a ausência atual de tropas em solo venezuelano não significa o fim da pressão. Segundo ele, uma “segunda onda” de ações militares poderá ser acionada caso haja resistência, seja das forças locais ou de autoridades civis. Ao ser questionado sobre quem comandaria o país, Trump apontou para membros-chave de seu governo, como Marco Rubio, o secretário da Defesa Pete Hegseth e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine.
Petróleo no centro da estratégia
No discurso, Trump foi explícito ao apontar o petróleo como eixo central da iniciativa. O presidente reiterou que os Estados Unidos teriam sido prejudicados por supostas expropriações de ativos energéticos por governos venezuelanos anteriores. “A Venezuela apreendeu e vendeu petróleo americano, ativos americanos e plataformas americanas, custando-nos bilhões”, afirmou.
Ao defender a retomada desses recursos, Trump indicou que empresas americanas seriam compensadas antes mesmo de qualquer redistribuição de riqueza interna. A posição reacendeu críticas de que Washington estaria adotando uma postura de diplomacia coercitiva, reminiscentes da chamada “diplomacia das canhoneiras”, prática comum no final do século XIX e início do século XX.
Paralelos históricos e base legal frágil
Analistas observam semelhanças entre o atual movimento e intervenções passadas dos Estados Unidos na América Latina, como no México, na Nicarágua e em países do Caribe. Trump, que recentemente exaltou figuras históricas como William McKinley — presidente associado à expansão territorial americana —, já havia mencionado no passado a possibilidade de anexação ou controle de territórios estratégicos como Groenlândia, Panamá e até o Canadá.
Do ponto de vista jurídico, o governo americano sustenta que a captura de Maduro se baseia em acusações de tráfico de drogas apresentadas desde 2020, ampliadas por uma nova denúncia divulgada no sábado, que inclui Cilia Flores. Especialistas, no entanto, ressaltam que essas acusações tratam de crimes individuais e não oferecem respaldo legal claro para a tomada de controle político de um Estado soberano.
Riscos de instabilidade prolongada
A estratégia levanta uma série de incertezas: será necessária uma força de ocupação para proteger a infraestrutura petrolífera? Quem decidirá sobre a exploração e a venda do petróleo? Como reagir caso eleições livres levem ao poder um governo com orientação distinta da desejada por Washington?
Essas dúvidas alimentam o temor de que os Estados Unidos sejam arrastados para um conflito prolongado, cenário que contraria a retórica de parte da base política de Trump, historicamente crítica às chamadas “guerras eternas”. Questionado sobre esse risco, o presidente minimizou as preocupações, citando operações pontuais de seu primeiro mandato, como a morte do general iraniano Qassim Suleimani.
Papel das Forças Armadas venezuelanas
Especialistas alertam que o desfecho dependerá, em grande medida, da postura das Forças Armadas da Venezuela. Para John Polga-Hecimovich, pesquisador da Academia Naval dos EUA, uma transição viável exigirá algum grau de cooperação entre setores pró e anti-regime. “Se houver fragmentação, com grupos armados adotando posições opostas, o risco de violência aumenta”, afirmou. Segundo ele, uma postura unificada dos militares poderia conferir legitimidade a qualquer governo que venha a emergir no pós-crise.
Enquanto isso, a retórica de Trump sinaliza uma mudança profunda na forma como os Estados Unidos se posicionam na região, recolocando a Venezuela no centro de um debate global sobre soberania, poder e os limites da intervenção internacional.
(Com David E. Sanger e Tyler Pager / The New York Times)



