Mudanças ampliam influência regional no PSD e reduzem tensões internas no União Brasil
PSD se aproxima do governo e fortalece base nordestina
O encerramento da janela partidária promoveu uma reconfiguração relevante no cenário político da Câmara dos Deputados, afetando diretamente duas das principais siglas do país. O PSD, presidido por Gilberto Kassab e que tem o governador Ronaldo Caiado como nome posto para a disputa presidencial, emerge com uma bancada mais alinhada ao governo federal e com maior peso do Nordeste em sua composição.
A legenda registrou saldo positivo no período, com a entrada de 16 parlamentares e a saída de 14, totalizando agora 49 cadeiras. A nova configuração evidencia um crescimento expressivo da representação nordestina, que passa a concentrar cerca de 40% da bancada — 20 deputados. Entre os novos integrantes oriundos da região está Túlio Gadêlha (PE), identificado politicamente com a esquerda e próximo ao presidente Lula.
Em contrapartida, houve retração da presença de outras regiões. O Sudeste reduziu sua participação de 15 para 13 parlamentares, enquanto o Sul passou de nove para oito representantes. Nos bastidores, lideranças da sigla avaliam que essa nova composição tende a aproximar o PSD do Palácio do Planalto, sobretudo diante da forte popularidade de Lula no Nordeste e da ocupação de três ministérios pelo partido — Pesca, Agricultura e Minas e Energia.
A mudança interna também traz implicações eleitorais. A tendência, segundo interlocutores, é que parte significativa dos quadros nordestinos apoie Lula já no primeiro turno, mesmo com a pré-candidatura de Caiado. Na prática, isso pode limitar a capacidade do governador de Goiás de consolidar apoio dentro do próprio partido em determinadas regiões.
Outro efeito relevante foi a saída de parlamentares mais alinhados ao bolsonarismo, que migraram majoritariamente para o PL, atraídos pela identificação ideológica e pelo número “22” nas urnas. Também houve baixas no Paraná após a desistência do governador Ratinho Junior de disputar a Presidência.
União Brasil encolhe, mas busca maior unidade interna
O União Brasil, por sua vez, encerrou a janela partidária com redução numérica, mas com uma perspectiva de maior coesão interna. A legenda perdeu 29 deputados e recebeu 21 novos filiados, resultando em uma bancada de 51 parlamentares — oito a menos em relação ao período anterior.
Grande parte das saídas teve como destino o PL, que absorveu nove deputados oriundos do partido. Ao mesmo tempo, dois ex-ministros do governo Lula deixaram a sigla: Celso Sabino (Turismo), que migrou para o PDT do Pará, e Juscelino Filho (Comunicações), agora no PSDB do Maranhão.
Apesar da redução, dirigentes avaliam que a reconfiguração tende a diminuir conflitos internos. Até então, o partido convivia com disputas frequentes entre alas de direita e setores mais centristas, além de divergências sobre o grau de alinhamento com o governo federal.
Com a saída desses grupos, a leitura predominante é de que o União Brasil se consolida como uma força mais típica do centrão, com maior capacidade de atuar de forma unificada em votações e negociações no Legislativo.
Estratégias e bastidores na reta final
Durante o período de migração partidária, o União Brasil chegou a enfrentar um cenário mais crítico, com saldo negativo de até 16 parlamentares. A reversão parcial desse quadro ocorreu na fase final da janela, impulsionada, segundo relatos, pelo peso do fundo eleitoral da legenda.
Dirigentes, incluindo o presidente Antônio Rueda, atuaram diretamente na articulação, realizando contatos pessoais com parlamentares para incentivar novas filiações.
Impacto geral e regras da janela partidária
No total, ao menos 121 dos 513 deputados federais mudaram de partido durante a janela partidária, número que ainda pode ser maior diante de atualizações pendentes.
O mecanismo permite a troca de legenda sem perda de mandato, uma vez que a Justiça Eleitoral entende que os cargos pertencem aos partidos. O período ocorre seis meses antes das eleições — previstas para outubro — e foi encerrado na última sexta-feira (3).
A composição das bancadas influencia diretamente o peso político das siglas, especialmente em negociações e formação de alianças. No entanto, as mudanças não alteram a distribuição do fundo eleitoral, que permanece baseada nos resultados das eleições anteriores.
Assim, embora o aumento ou redução de parlamentares tenha impacto estratégico, também impõe desafios na divisão de recursos e na construção de competitividade eleitoral para o próximo pleito.



