Conselho interino assume comando enquanto Guarda Revolucionária pressiona por definição rápida
A morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, no sábado, precipitou uma corrida institucional em Teerã para garantir a continuidade do regime em plena escalada militar contra Estados Unidos e Israel. No segundo dia do conflito, autoridades iranianas sinalizaram que a sucessão será conduzida com celeridade, numa tentativa de demonstrar que os ataques não desestruturaram o sistema político consolidado desde 1979.
Neste domingo, o aiatolá Alireza Arafi foi designado para integrar o Conselho de Liderança Interino, órgão responsável por administrar a República Islâmica até a escolha do novo líder supremo. A junta provisória também é composta pelo presidente Masoud Pezeshkian e pelo chefe do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei.
Arafi, integrante do Conselho dos Guardiões e da Assembleia dos Especialistas, é considerado uma figura de peso no establishment religioso, combinando conservadorismo doutrinário com defesa do uso estratégico da tecnologia. Para analistas, sua presença no conselho sinaliza continuidade. Segundo fontes ouvidas pela rede Iran International, a Guarda Revolucionária pressiona por uma definição imediata, de modo a “garantir a continuidade do regime e passar uma imagem de resiliência ao exterior”.
Ao anunciar a guerra, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que um de seus objetivos era criar condições para que a população iraniana derrubasse o regime. Até o momento, contudo, não há indícios de mobilizações em larga escala, deserções nas forças de segurança ou convulsão interna significativa, apesar de relatos pontuais de celebrações pela morte de Khamenei.
Processo sucessório sob risco e incerteza
A Constituição iraniana determina que o líder supremo deve ser confirmado pela Assembleia dos Especialistas, colegiado de 88 membros eleitos pelo voto popular — atualmente dominado por conservadores. Em circunstâncias normais, o órgão se reuniria para deliberar sobre o nome do sucessor. Porém, com bombardeios atingindo lideranças e estruturas governamentais, a convocação presencial parece improvável, segundo as mesmas fontes.
Entre os nomes ventilados estão o próprio Arafi; Mohseni-Ejei; Mojtaba Khamenei, filho do líder morto; Mohammad Mehdi Mirbagheri, clérigo de linha radical; e Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica e visto como mais moderado.
A sucessão do líder supremo é um dos temas mais sensíveis e opacos da política iraniana. Em 1989, após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, a Assembleia rejeitou a ideia de um conselho tripartite e aprovou, com dois terços dos votos, o nome de Ali Khamenei — que à época não preenchia plenamente os requisitos religiosos para o cargo, posteriormente ajustados por emenda constitucional.
Escalada militar amplia tensão regional
Enquanto a transição política se desenrola sob pressão, o conflito se intensifica em múltiplas frentes. Israel lançou novos bombardeios contra Teerã, atingindo a base Sarallah da Guarda Revolucionária, estrutura associada à repressão de protestos. No sul do país, uma corveta iraniana foi afundada após ataque americano, segundo o Pentágono. A embarcação, em operação desde 2010, transportava mísseis antiaéreos, torpedos e canhões.
Em Mehran, próximo à fronteira com o Iraque, 43 integrantes das forças de segurança morreram em um ataque aéreo contra uma base militar. A agência estatal Mehr atribuiu o episódio a “agentes dos Estados Unidos e do regime sionista”, expressão usada pelo Irã para se referir a Israel.
Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que 48 lideranças do regime morreram desde o início da ofensiva. “Está avançando. Está avançando rapidamente. Tem sido assim há 47 anos”, declarou. “Ninguém consegue acreditar no sucesso que estamos tendo, 48 líderes caíram de uma vez.”
Ao portal The Atlantic, o presidente americano afirmou estar disposto a negociar com as futuras lideranças iranianas. “Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou conversar com eles. Eles deveriam ter feito isso antes. Deveriam ter apresentado algo que era muito prático e fácil de fazer antes. Esperaram demais”, disse.
Diplomacia interrompida e risco global
Dois dias antes do início da guerra, representantes iranianos e americanos haviam se reunido em Genebra para discutir um novo acordo nuclear. Diplomatas relataram avanços, citando proposta iraniana para não estocar urânio enriquecido e diluir o material existente a níveis adequados ao uso civil. O chanceler de Omã, Badr al-Busaidi, mediador das conversas, afirmou que Teerã permanece aberto a “esforços sérios para desescalar”.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, indicou que a ofensiva continuará. “Dei instruções para a continuação da campanha… Nossas forças estão agora atacando o coração de Teerã com grande poder, e isso só irá se intensificar nos próximos dias”, declarou.
O Irã respondeu com novos ataques contra Israel, atingindo cidades próximas a Jerusalém e Tel Aviv. Também houve bombardeios contra Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Omã. No porto de Duqm, um ataque com drones deixou um ferido. Embarcações foram atingidas nas proximidades do Estreito de Ormuz, área estratégica por onde transita parcela significativa do petróleo global.
Diante do risco de desabastecimento e disparada nos preços, países da Opep+ anunciaram aumento da produção a partir de abril. O Comando Central dos EUA confirmou a morte de três militares americanos — as primeiras baixas oficiais do país no conflito.
Em meio à sucessão incerta e à intensificação da guerra, o regime iraniano tenta demonstrar coesão interna. O desfecho da transição e a duração do conflito, no entanto, permanecem em aberto — com impactos que extrapolam o Oriente Médio e atingem diretamente a estabilidade energética e geopolítica global.

