Documentos indicam contratos sigilosos para questionar a liquidação da instituição nas redes sociais e simular mobilização espontânea contra o órgão regulador
Influenciadores alinhados à direita receberam propostas que chegavam a R$ 2 milhões para publicar conteúdos críticos ao Banco Central durante o processo de liquidação do Banco Master. A iniciativa, identificada como “projeto DV” — referência às iniciais de Daniel Vorcaro, controlador da instituição — previa cláusulas rigorosas de confidencialidade para preservar a aparência de um movimento orgânico nas redes sociais.
A colunista Malu Gaspar (O Globo), em sua coluna, afirma que a reportagem teve acesso a documentos, registros de conversas e comprovantes de transferências bancárias que detalham a operação. Parte do material foi fornecida sob condição de sigilo, para preservar a identidade dos envolvidos. Os valores variavam conforme o alcance dos perfis contratados.
Valores escalonados e metas de postagens
Segundo os documentos, um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores recebeu proposta de R$ 2 milhões por três meses de trabalho, com a obrigação de publicar oito postagens mensais. Já um perfil com menos de 500 mil seguidores foi convidado a participar pelo valor de R$ 250 mil, nas mesmas condições.
Em ao menos um caso, o pagamento foi realizado antes mesmo da publicação dos conteúdos.
Dois influenciadores que avançaram nas negociações afirmaram que o contratante final era a Agência Mithi, controlada por Thiago Miranda, ex-CEO e sócio do Grupo Leo Dias, com participação de 10%. Comprovantes bancários mostram que ao menos um dos depósitos partiu diretamente de uma conta em nome de Miranda. O principal sócio do grupo é o empresário Flávio Carneiro, detentor de 60% do capital.
Posicionamentos e silêncio
Procurado, o jornalista Leo Dias declarou que a Agência Mithi não mantém vínculo com o portal que leva seu nome e informou que Thiago Miranda deixou o comando do grupo em junho. Miranda, por sua vez, não respondeu às tentativas de contato.
Entre os abordados esteve o deputado estadual Leo Siqueira (Novo-SP), crítico da atual gestão do Banco Central. Ele relatou que interrompeu as conversas ao perceber a possível ligação do projeto com Daniel Vorcaro. “Quando me dei conta de quem poderia estar por trás daquela gestão de crise, encerrei imediatamente o contato”, afirmou. “Só tive a confirmação de que se tratava do Banco Master quando as propostas vieram a público, com o mesmo roteiro e os mesmos interlocutores.”
Segundo o parlamentar, o primeiro contato ocorreu em 21 de dezembro, por mensagem no Instagram enviada pelo publicitário André Salvador, vinculado à UNLTD Brasil, empresa especializada em perfis de direita.
Outro agente citado como intermediário foi Junior Favoreto, do Portal Group BR, que atua no mesmo segmento.
Um roteiro padrão
As abordagens seguiam um padrão: os influenciadores eram convidados a participar de um “projeto de comunicação” voltado à “gestão de crise de um executivo do mercado financeiro”. Informações essenciais, como o nome do banqueiro e os valores, só seriam reveladas após a assinatura de um acordo de confidencialidade (NDA).
Questionado, André Salvador afirmou que retornaria às ligações, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem. Já Junior Favoreto declarou que sua empresa apenas indicou perfis a pedido de “outra agência”, que não especificou, e sustentou que nenhum contrato foi firmado. Ele também disse não conhecer a Agência Mithi nem ter mantido contato com Thiago Miranda.
Documentos obtidos pela reportagem, no entanto, mostram que o serviço oferecido aos influenciadores era identificado formalmente como “projeto DV”.
Prisão de Vorcaro e contexto judicial
Daniel Vorcaro foi preso em 18 de novembro durante a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, sob suspeita de tentativa de fuga para Malta. Onze dias depois, foi solto por decisão da Justiça Federal de Brasília, mediante o uso de tornozeleira eletrônica.
No período em que as propostas eram feitas aos influenciadores, Vorcaro cumpria medidas cautelares, incluindo a proibição de contato com outros investigados.
Quem é Thiago Miranda
Aos 39 anos, Thiago Miranda é proprietário da Agência Mithi, registrada como Miranda Comunicação na Receita Federal. Ele se tornou sócio do Grupo Leo Dias em 2023, embora documentos apresentados pela defesa do jornalista indiquem que a formalização societária ocorreu apenas no ano passado.
Leo Dias afirmou ainda que Vorcaro não possui qualquer participação no grupo.
Atuante no mercado de comunicação, Miranda e sua agência mantêm contratos com celebridades, marcas de luxo e instituições financeiras, como a XP. Questionado sobre eventuais vínculos com Vorcaro, ele não se manifestou.
(Com o Globo)



