A inflação dos alimentos tornou-se um desafio significativo para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), impactando sua popularidade.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou nesta quinta-feira (6) um pacote de medidas com o objetivo de conter a alta nos preços de produtos essenciais para a população.
Entre as principais ações, estão a isenção de impostos de importação para determinados alimentos, o fortalecimento dos estoques públicos e a priorização do Plano Safra para a produção de itens da cesta básica. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, as medidas devem entrar em vigor nos próximos dias.
Inflação dos alimentos acima da média geral
O impacto da inflação dos alimentos tem sido expressivo. Em 2024, os preços da categoria registraram alta de 7,69%, superando a inflação geral do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que avançou 4,83% no mesmo período. Produtos essenciais como café (39,6%), óleo de soja (29,2%), carne (20,8%) e leite longa vida (18,8%) estiveram entre os maiores responsáveis pelo aumento.

Foto: Getty Images / BBC News Brasil
O anúncio das medidas ocorreu após uma reunião entre Lula, Alckmin e os ministros Carlos Fávaro (Agricultura), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), Rui Costa (Casa Civil) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social).
“São medidas para reduzir preços, para favorecer o cidadão e a cidadã, para que ele possa manter o seu poder de compra, possa ter a sua cesta básica com preço melhor”, afirmou Alckmin, que também ocupa o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Três frentes para tentar conter a alta dos alimentos
1. Isenção de impostos de importação
Uma das principais iniciativas do governo é a eliminação do imposto de importação para produtos como azeite (9%), milho (7,2%), óleo de girassol (até 9%), sardinha (32%), biscoitos (16,2%), macarrão (14,4%), café (9%), carnes (até 10,8%) e açúcar (até 14%).
“O governo está abrindo mão de imposto, está deixando de arrecadar, para favorecer a redução de preço”, declarou Alckmin.
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, destacou que esses produtos têm importação reduzida devido às altas tributações. Assim, a retirada dos impostos pode gerar impacto positivo nos preços para o consumidor.
Alckmin também minimizou o risco de prejuízo à produção nacional, argumentando que a importação desses produtos servirá como complemento e não como substituição da produção interna.
2. Estímulo ao abastecimento interno
Para fortalecer a oferta de alimentos, o governo anunciou a priorização do Plano Safra para a produção de itens da cesta básica. Além disso, estuda-se a redução de juros no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), a fim de estimular essa produção.
O ministro Paulo Teixeira também mencionou que insumos agrícolas poderão ser contemplados com benefícios, buscando reduzir custos para os produtores.
O governo ainda pretende ampliar a capacidade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e evitar aumentos no custo do transporte de alimentos, mantendo o percentual de biodiesel no diesel em 14% e a mistura de etanol na gasolina em 27,5%.
3. Selo de certificação e ampliação de mercados
Outra estratégia do governo é a criação do selo “Empresa Amiga do Consumidor”, que identificará supermercados e empresas que praticam preços “equilibrados” nos itens da cesta básica.
Além disso, o governo ampliará por um ano a autorização para que produtos com certificação sanitária municipal sejam comercializados em todo o território nacional, o que pode beneficiar itens como leite, mel e ovos.
O governo também buscará aumentar a adesão de municípios ao Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi), ampliando o alcance de produtos certificados.
Impacto e perspectivas
Especialistas apontam que os efeitos dessas medidas podem não ser sentidos de imediato. O economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV), destacou que políticas para conter a inflação dos alimentos são, em geral, de médio a longo prazo. “Não existe uma fórmula mágica para baratear o preço dos alimentos, isso vai depender de políticas em diferentes segmentos, e mais de médio e longo prazo”, afirmou Braz.
Entre as iniciativas anunciadas, o corte de impostos de importação tende a apresentar impacto mais rápido, enquanto as demais estratégias devem levar mais tempo para refletir nos preços ao consumidor.
Com o desafio de conter a inflação alimentar e recuperar a popularidade, o governo Lula aposta nesse pacote de medidas para aliviar o peso dos preços no bolso dos brasileiros. (Fonte: BBC News Brasil )