Com presença de autoridades de nações adversárias, Santa Sé recorreu à ordem alfabética para organizar os assentos e evitar constrangimentos no último adeus ao pontífice.
O funeral do papa Francisco, realizado neste sábado (26), no Vaticano, reuniu dezenas de líderes globais em um cenário diplomático delicado, marcado por tensões entre algumas das nações representadas. Para lidar com o que poderia se tornar um “pesadelo geopolítico”, a Santa Sé aplicou um protocolo rigoroso, a fim de evitar encontros constrangedores durante a cerimônia.
Compareceram ao evento cerca de 50 chefes de Estado e 130 delegações estrangeiras, entre elas representantes de países em conflito direto ou com relações tensas. Estavam presentes, por exemplo, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e um ministro russo; um ministro iraniano e um embaixador de Israel; além do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu antecessor, Joe Biden. Também marcaram presença líderes de países que foram alvo de sanções ou medidas tarifárias impostas por Trump durante seu governo.
Para contornar os potenciais embates, o Vaticano adotou um critério simples, porém eficaz: a distribuição dos assentos foi feita conforme a ordem alfabética dos países, seguindo o francês — idioma oficial da diplomacia internacional. As autoridades foram organizadas em grupos (monarcas, chefes de Estado, chefes de governo e ministros) e dispostas de acordo com essa listagem, garantindo uma disposição neutra e previsível.

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Apenas duas exceções foram abertas ao protocolo. Os representantes da Argentina, terra natal de Francisco, e da Itália, país que abriga o Vaticano, receberam assentos de honra, mais próximos ao altar.

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Dessa forma, o presidente argentino Javier Milei e sua comitiva ocuparam uma posição privilegiada, seguidos pelas autoridades italianas.
Encontros inevitáveis
Apesar da estratégia diplomática, alguns encontros desconfortáveis foram inevitáveis. Donald Trump, por exemplo, ficou entre os representantes da Estônia e da Finlândia — países críticos à Rússia e atentos às movimentações do Kremlin. Poucos assentos adiante, estavam o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-dama, Brigitte Macron.
Volodymyr Zelensky foi acomodado a aproximadamente dez assentos e um corredor de distância de Trump. Os dois líderes, contudo, haviam tido uma reunião considerada “produtiva” antes da cerimônia, segundo relato da Casa Branca, na qual discutiram um possível cessar-fogo na guerra entre Ucrânia e Rússia.
Mais ao fundo, o ex-presidente Joe Biden e a ex-primeira-dama Jill Biden assistiram à missa, sentados quatro fileiras atrás da linha principal de autoridades. Já o príncipe William, representando o Reino Unido, foi posicionado ao lado do chanceler alemão Olaf Scholz. O Brasil esteve representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado da primeira-dama, Janja da Silva.
A organização cuidadosa do evento refletiu a importância do papa Francisco no cenário internacional e o esforço da Santa Sé para garantir um ambiente solene, apesar das divergências políticas entre os presentes. O pontífice, conhecido por seu papel em promover o diálogo entre nações e apelos frequentes pela paz, reuniu lideranças de diferentes espectros ideológicos em sua despedida.