Especialistas veem contradição entre discurso moderado e raízes do bolsonarismo; aliados apostam em redução da rejeição ao longo da campanha
Estratégia de moderação divide aliados e analistas
A tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de se apresentar como um nome mais equilibrado no cenário político nacional impõe um desafio relevante à sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026. Enquanto interlocutores próximos destacam diferenças de estilo em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, estudiosos apontam que a estratégia encontra limites estruturais em sua trajetória e no projeto político ao qual está vinculado.
No entorno do senador, a avaliação é de que a construção de uma imagem mais moderada pode ampliar seu alcance eleitoral. A aposta reside na distinção entre pai e filho, sustentada pela percepção de que Flávio adota uma postura menos confrontadora. Já pesquisadores dedicados ao estudo da extrema direita consideram que essa narrativa enfrenta resistência, sobretudo por estar associada a um movimento político marcado por posições mais radicais.
Aliados apostam em queda da rejeição
Reservadamente, aliados descrevem o senador como uma figura “dócil e equilibrada” e acreditam que essa característica pode contribuir para reduzir índices de rejeição. Levantamento recente do Datafolha indica empate técnico nesse indicador entre Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com percentuais próximos.
Nesse contexto, a estratégia consiste em desvincular a imagem do senador da do ex-presidente, sem, contudo, romper com a base bolsonarista. A leitura entre apoiadores é de que o núcleo mais fiel do eleitorado não seria perdido, uma vez que Flávio ainda representa a continuidade do grupo político.
Também há a avaliação de que a rejeição de Lula já estaria consolidada, enquanto a de Flávio poderia ser atenuada ao longo da campanha. Para aliados, não há inconsistência em combinar um discurso rigoroso na área de segurança pública com sinalizações voltadas a pautas sociais.
Sinais de reposicionamento e acenos a novos públicos
Nos últimos meses, o senador intensificou manifestações que buscam dialogar com diferentes segmentos da sociedade. Em agendas com representantes do setor econômico em São Paulo, incluindo encontros com empresários e instituições financeiras, passou a adotar um tom mais conciliador.
A mudança também se refletiu nas redes sociais. Em publicações recentes, abordou temas como ampliação de vagas em creches e condenação a episódios de racismo no esporte, além de compartilhar conteúdos com mensagens associadas à diversidade e liberdade individual.
Apesar disso, o parlamentar mantém posicionamentos firmes em pautas conservadoras. Defendeu, por exemplo, a redução da maioridade penal para 14 anos e a adoção de castração química para condenados por estupro.
Histórico eleitoral e limites da estratégia
A tentativa de construir uma imagem mais moderada não é inédita. Em 2016, ao disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro, Flávio buscou apresentar-se como uma versão mais moderada do pai, mas terminou fora do segundo turno.
Para especialistas, a dificuldade atual reside na própria natureza do movimento político ao qual o senador está associado. O historiador Odilon Caldeira Neto avalia que “a expressão ‘bolsonarismo moderado’ é uma contradição em termos. O bolsonarismo existe por causa da radicalização, encarnada por Bolsonaro”.
Na mesma linha, a cientista política Mayra Goulart afirma que a identidade política de Flávio está intrinsicamente ligada ao pai. “Há uma limitação relevante, pois esse vínculo com o extremismo é constitutivo da sua trajetória”, diz.
Segundo analistas, o bolsonarismo se diferencia da direita tradicional por sua postura crítica às instituições, defesa de valores conservadores estruturais e interpretação particular do conceito de democracia.
Divergências no meio acadêmico
Há, contudo, leituras divergentes. O cientista político Adriano Gianturco sustenta que movimentos políticos podem passar por processos de moderação ao longo do tempo. Para ele, o bolsonarismo não é homogêneo.
“Os bolsonaristas que defendem ditadura são pouquíssimos. A maioria que vota em Bolsonaro nem necessariamente se identifica com esse rótulo”, afirma.
Já Thaís Pavez, diretora da Pesquisa Latina Consultoria, avalia que a tentativa de equilibrar demandas da base com uma imagem moderada tende a ser complexa, especialmente diante da maior exposição que uma campanha presidencial impõe.
Passado político e controvérsias
Ao longo de sua trajetória, Flávio Bolsonaro manteve alinhamento com posições defendidas pelo pai. Como deputado estadual no Rio de Janeiro, concedeu homenagens a figuras posteriormente associadas a investigações criminais. Também esteve presente em episódios de defesa pública de declarações controversas do ex-presidente.
Mais recentemente, o senador tem conciliado a pré-campanha com a defesa política de Jair Bolsonaro, incluindo manifestações favoráveis à anistia. Em entrevista ao programa Roda Viva, negou a caracterização dos atos de 8 de janeiro de 2023 como tentativa de golpe.
“Se eu quiser te vender um terreno na lua agora, você vai aceitar? Não. Por quê? Porque é um crime impossível. Quando é um crime impossível, não há crime. Essa narrativa de tentativa de golpe no 8 de janeiro é um crime impossível”, afirmou.
Em outra ocasião, sugeriu que um eventual governo alinhado ao ex-presidente poderia conceder indulto, ainda que diante de resistência institucional. A declaração foi alvo de críticas de especialistas em direito constitucional.
Para a jurista Gabriela Zancaner, “essa é uma fala golpista. Há uma separação de poderes na nossa Constituição e não cabe ao Executivo interferir em questões do Judiciário”.
Disputa de narrativa já mobiliza adversários
Atentos ao movimento, adversários políticos passaram a direcionar esforços para contestar a imagem de moderação construída pelo senador. A disputa tende a se intensificar à medida que o processo eleitoral avança, colocando em evidência o contraste entre discurso e histórico político.
Nesse cenário, a viabilidade da estratégia dependerá não apenas da comunicação adotada, mas também da capacidade de Flávio Bolsonaro de conciliar sua base de apoio com a ampliação do eleitorado — um equilíbrio que, segundo analistas, permanece incerto.



