Movimentação do senador do PL pode redesenhar alianças no estado e afetar eventual projeto presidencial do governador
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) elevou o tom nas articulações políticas e passou a admitir apoiar o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) ao governo do Paraná caso o governador Ratinho Jr. (PSD) decida disputar a Presidência da República em 2026. Nos bastidores, também entrou no radar a possibilidade de filiação de Moro ao PL, diante das dificuldades que ele enfrenta para consolidar sua candidatura no União Brasil.
A movimentação ameaça desestabilizar o acordo firmado entre o PL paranaense e Ratinho Jr. As duas lideranças devem se reunir após o Carnaval para tentar recompor a aliança. O governador entrou em férias na terça-feira (10) e tem retorno previsto ao país apenas no dia 25 de fevereiro. Flávio, por sua vez, cumpria agenda internacional com líderes conservadores.
Acordo sob risco
Antes de qualquer especulação presidencial envolvendo Flávio, o PL havia pactuado apoio ao nome indicado por Ratinho Jr. para sua sucessão no Palácio Iguaçu, em troca de espaço para que o deputado federal Filipe Barros disputasse o Senado. Entre os cotados para a sucessão estão o secretário de Cidades, Guto Silva (PSD), o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (PSD), e o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (PSD).
A estratégia de Flávio, segundo três interlocutores, é estruturar palanques próprios em todas as unidades da federação e evitar a associação com candidatos que possam disputar protagonismo nacional. Nesse contexto, a aproximação com Moro serviria não apenas como alternativa eleitoral no Paraná, mas também como instrumento de pressão para dissuadir Ratinho Jr. de uma candidatura ao Planalto.
Dúvidas no Palácio Iguaçu
Ratinho Jr. ainda não definiu seu rumo em 2026. O governador oscila entre uma candidatura presidencial e uma eventual disputa ao Senado. Aliados relatam que, em conversas reservadas, ora ele avalia que a polarização entre um Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reduziria o espaço para uma terceira via; ora demonstra confiança de que poderia alcançar o segundo turno e vencer, apoiado em índices de rejeição mais baixos.
Há também fatores extrínsecos à política eleitoral. De acordo com três aliados, o pai do governador, o apresentador e empresário Carlos Massa, o Ratinho, tem manifestado preocupação com possíveis impactos sobre os negócios da família, que incluem concessões de rádio e televisão em diversos estados.
No plano local, pesa ainda o controle do grupo político sobre o governo estadual. Com aprovação superior a 80%, Ratinho Jr. trabalha para eleger seu sucessor. Pesquisas de intenção de voto, contudo, têm colocado Moro na liderança, impulsionado pela notoriedade acumulada como juiz da Operação Lava Jato.
O peso do bolsonarismo
O eleitorado paranaense é tradicionalmente inclinado à direita, e o apoio da família Bolsonaro tende a ser decisivo. Na eleição municipal de Curitiba, em 2024, a jornalista Cristina Graeml chegou ao segundo turno pelo pequeno PMB e ameaçou o candidato apoiado por Ratinho Jr. após sinalizações de endosso do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre aliados do governador, a hipótese de apoio explícito de Bolsonaro a Moro é vista como fator de alto risco eleitoral — sobretudo se acompanhada de eventual filiação ao PL, legenda que dispõe do maior tempo de propaganda em rádio e televisão e da maior fatia do fundo eleitoral.
Resistências e impasses no União Brasil
No União Brasil, Moro enfrenta entraves internos. Após meses de articulação e pressão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ele assumiu o comando local da sigla. Ainda assim, ao menos dois deputados federais — Felipe Francischini e Nelson Padovani — preparam saída para permanecer no grupo político de Ratinho Jr.
Além disso, a definição da candidatura passa pelo PP, partido que comandará a federação com o União Brasil no Paraná e já manifestou resistência. O presidente estadual do PP, deputado Ricardo Barros (PR), foi direto: “Hoje, o que está definido é que o Moro não será nosso candidato”.
Barros afirma que a federação pode negociar apoio ao nome indicado por Ratinho Jr., mas também avalia lançar candidatura própria. Entre as alternativas citadas estão a ex-governadora Cida Borghetti, o ex-prefeito de Londrina Marcelo Belinati e Rafael Greca, caso este não encontre espaço no grupo do governador. “Temos alternativas que dialogam melhor com a política”, declarou.
Prazo e definição partidária
Procurado, Moro não comentou as tratativas com o PL. Em nota, reafirmou a intenção de disputar o governo pelo União Brasil: “O senador Sergio Moro permanece no União Brasil, partido que garantiu sua candidatura ao governo do Paraná nas eleições de 2026. As divergências com PP serão resolvidas com diálogo”.
Integrantes do PP avaliam, entretanto, que o cenário interno pode evoluir favoravelmente a Moro. Um aliado do presidente nacional da legenda, senador Ciro Nogueira (PI), afirma que ele estaria mais inclinado a respaldar a candidatura do ex-juiz, sob o argumento de que isso ampliaria a bancada federal e a representação no Senado. Esse arranjo poderia ocorrer mesmo com eventual apoio de Flávio Bolsonaro.
Moro tem até 4 de abril para definir sua filiação partidária caso pretenda disputar as eleições de 2026 — prazo que se tornou o marco decisivo para a reconfiguração das forças políticas no Paraná.



