Concorrência tende a reduzir preços, ampliar a oferta e reacender debate sobre acesso no SUS
O mercado brasileiro de medicamentos para emagrecimento caminha para um novo ciclo de expansão a partir de março, com o vencimento da patente da semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — e a consequente entrada de versões genéricas e similares. A expectativa do setor é de uma intensificação da concorrência, acompanhada por uma queda expressiva nos preços, estimada entre 30% e 50%.
Mercado em rápida expansão
Segundo relatório da UBS BB Corretora, o faturamento das chamadas canetas emagrecedoras, pertencentes à classe dos agonistas do GLP-1, pode alcançar R$ 20 bilhões em 2026, praticamente o dobro dos R$ 11 bilhões projetados para 2025. O avanço é impulsionado tanto pela ampliação da oferta quanto pela demanda crescente, em um país onde o sobrepeso e a obesidade atingem parcelas cada vez maiores da população.
Atualmente, o uso desses medicamentos ainda é restrito. Apenas 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos obesos fazem tratamento com essas drogas no Brasil, de acordo com o levantamento. Nos Estados Unidos, a penetração é significativamente maior, especialmente entre pessoas com diabetes associada ao excesso de peso.
Corrida por registros e novos fabricantes
O término das patentes já se reflete no aumento dos pedidos de registro junto à Anvisa. Há solicitações em análise para versões genéricas de semaglutida e liraglutida — princípio ativo do Victoza e do Saxenda, cuja proteção intelectual expirou no fim de 2024. Também constam pedidos envolvendo medicamentos biológicos, incluindo combinações de ação prolongada.
Empresas como EMS, Eurofarma e Hypera anunciaram investimentos para ingressar nesse mercado. Para Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, a concorrência é determinante para ampliar o acesso. Na avaliação dele, a disputa entre fabricantes tende a funcionar como o principal mecanismo de controle de preços.
Acesso ainda limitado
Especialistas ponderam, porém, que a redução de preços não deve democratizar plenamente o tratamento. Para o endocrinologista Bruno Geloneze, da Unicamp, mesmo com genéricos, o uso seguirá concentrado nas classes de maior renda. Segundo ele, o impacto mais imediato será sobre as margens das farmacêuticas, não necessariamente sobre a base de pacientes atendidos.
O contexto epidemiológico, no entanto, reforça a pressão por soluções. Dados internacionais indicam que 68% dos brasileiros estão acima do peso e 31% são obesos. Nas últimas duas décadas, os índices praticamente dobraram, consolidando a obesidade como um dos principais desafios de saúde pública no país.
SUS, custos e judicialização
O preço elevado continua sendo um obstáculo central. Hoje, caixas de semaglutida ou tirzepatida variam entre R$ 900 e R$ 3.000 e não são ofertadas pelo SUS. Em 2025, a Conitec rejeitou a incorporação da semaglutida para obesidade, citando impacto orçamentário estimado em R$ 7 bilhões em cinco anos.
Analistas da UBS BB avaliam que a chegada de genéricos pode reabrir essa discussão, uma vez que o custo foi o principal argumento contrário à incorporação. Ainda assim, permanece a incerteza sobre o efeito de uma eventual ampliação do acesso sobre os gastos públicos. Uma das estratégias em curso é a parceria entre a EMS e a Fiocruz para transferência de tecnologia de produção.
Paralelamente, cresce a judicialização. Levantamento da Projuris mostra que a maioria das ações judiciais envolvendo canetas emagrecedoras é movida contra o SUS, com decisões frequentemente favoráveis aos pacientes, o que pressiona ainda mais o orçamento público.
Riscos sanitários e uso inadequado
Outro ponto de atenção é o uso fora das indicações aprovadas, prática que eleva o risco de efeitos adversos relevantes, como distúrbios gastrointestinais e deficiências nutricionais. A circulação de produtos irregulares também preocupa autoridades. Operações recentes da Polícia Federal desarticularam redes clandestinas de comercialização, e a Anvisa já proibiu versões manipuladas desses princípios ativos.
Futuro do setor e novas terapias
Enquanto isso, a indústria se prepara para uma disputa ainda mais intensa, com moléculas em desenvolvimento que prometem resultados superiores aos atuais. O retatrutide, por exemplo, apresentou perdas de peso próximas a 30% em estudos clínicos, elevando o patamar de eficácia esperado.
Para Mussolini, modelos de compartilhamento de risco e protocolos bem definidos podem viabilizar o uso dessas terapias tanto no SUS quanto na saúde suplementar. O desafio, segundo analistas do mercado, será manter esses modelos atualizados diante da rápida evolução tecnológica e do lançamento constante de novos medicamentos.



