Pesquisadores brasileiros identificam desequilíbrios em minerais essenciais como ferro e cálcio, reforçando o alerta contra a automedicação e o uso crônico sem supervisão médica
O impacto da redução da acidez estomacal na absorção de nutrientes
A utilização contínua de fármacos da classe dos inibidores da bomba de prótons (IBPs) — que abrange medicamentos populares como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol — tornou-se alvo de uma investigação detalhada conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em colaboração com a Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). O estudo, que contou com o suporte da FAPESP e foi publicado na revista científica ACS Omega em novembro de 2025, revela que a supressão prolongada da acidez gástrica pode comprometer seriamente a biodisponibilidade de nutrientes fundamentais. Embora a redução do pH estomacal seja terapêutica para o tratamento de úlceras e refluxo, ela acaba interferindo em processos químicos naturais indispensáveis para a absorção de minerais pelo organismo.
Desequilíbrios minerais e os riscos de anemia e osteoporose
Os ensaios conduzidos em laboratório demonstraram alterações significativas nos níveis de substâncias como ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio após períodos de uso que variaram de 10 a 60 dias. Entre os resultados mais alarmantes, os pesquisadores observaram uma redução nos níveis de ferro na corrente sanguínea, o que eleva o risco de quadros anêmicos, e uma elevação atípica do cálcio circulante.
Segundo o coordenador do estudo e professor da Unifesp, Angerson Nogueira do Nascimento: “O achado mais preocupante foi o aumento de cálcio na corrente sanguínea dos animais, o que pode indicar um desequilíbrio com a retirada do mineral dos ossos e um risco futuro de osteoporose. No entanto, são necessários estudos mais longos para confirmar essa hipótese”. Além dos possíveis danos ao sistema musculoesquelético, a pesquisa identificou reflexos em células do sistema imunológico, sugerindo que o impacto desses medicamentos pode ser sistêmico, extrapolando o aparelho digestivo.
O desafio da automedicação e as novas regras da Anvisa
A onipresença do omeprazol nos lares brasileiros é um ponto de atenção para a comunidade médica, especialmente devido ao consumo frequente para o alívio de sintomas leves, como azia, sem o devido acompanhamento profissional. Para a pesquisadora Andréa Santana de Brito, da Unifesp, a banalização do uso é o fator crítico. “Não se trata de demonizar o medicamento, que é eficaz para várias condições gástricas. O problema é o uso banalizado, inclusive para sintomas leves como azia, e por períodos que se estendem por meses ou anos. Esses efeitos adversos não podem ser ignorados”, adverte a especialista.
A preocupação ganha novos contornos após a decisão da Anvisa, em novembro de 2025, de liberar a comercialização da dosagem de 20 mg sem a obrigatoriedade de receita médica. Embora a agência ressalte que o tratamento autônomo não deve ultrapassar 14 dias sem avaliação profissional, os pesquisadores temem que a facilidade de acesso estimule o uso por tempo indeterminado, ocultando os riscos de efeitos colaterais.
Diretrizes para o uso consciente e orientado
Os cientistas advertem que moléculas mais modernas da mesma classe podem exercer efeitos ainda mais persistentes na absorção nutricional devido à sua maior potência. O objetivo do estudo não é inviabilizar o acesso ao remédio, mas sim promover o uso racional e a vigilância individualizada. De acordo com a equipe liderada por Nogueira: “Reforçamos a importância do uso racional desses medicamentos e da avaliação individual de cada paciente. Em alguns casos, pode ser necessário acompanhamento mais próximo e até suplementação, sempre com orientação médica”. A recomendação final é enfática: sintomas gástricos persistentes exigem diagnóstico especializado, evitando que o alívio imediato resulte em complicações nutricionais e ósseas a longo prazo.



