Pesquisa internacional aponta efeitos metabólicos ligados ao consumo excessivo; especialistas pedem cautela na interpretação
Ingrediente onipresente nas cozinhas brasileiras e amplamente utilizado pela indústria de alimentos ultraprocessados, o óleo de soja voltou ao centro de uma controvérsia científica. Um estudo recente sugere que o consumo elevado do produto pode estar associado ao ganho de peso e a alterações metabólicas, levantando questionamentos sobre o papel desse tipo de gordura na epidemia global de obesidade.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em Riverside, analisou os efeitos do óleo de soja em modelos experimentais e observou maior acúmulo de gordura corporal em comparação com outras fontes lipídicas avaliadas. Os resultados foram divulgados na revista PLOS One.
Segundo os autores, o impacto estaria relacionado à composição rica em ácido linoleico — um tipo de gordura poli-insaturada da família ômega-6 — que, em excesso, pode influenciar mecanismos inflamatórios e metabólicos no organismo.
O que o estudo indica
Nos experimentos, dietas com alta proporção de óleo de soja levaram a maior ganho de peso, resistência à insulina e alterações no fígado. Embora os dados tenham sido obtidos em laboratório, os pesquisadores destacam que o padrão alimentar contemporâneo, especialmente em países ocidentais, apresenta consumo elevado de óleos vegetais refinados, o que justificaria investigações mais aprofundadas.
O óleo de soja é amplamente utilizado não apenas no preparo doméstico, mas também em margarinas, molhos prontos, frituras industriais e produtos ultraprocessados — categoria associada a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Especialistas pedem equilíbrio
Apesar dos achados, nutricionistas e pesquisadores ressaltam que a interpretação deve ser cuidadosa. O óleo de soja é aprovado por órgãos reguladores e, quando consumido dentro de uma dieta equilibrada, não é considerado tóxico.
O ponto central, segundo especialistas, está no padrão alimentar como um todo. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, excesso calórico e baixa ingestão de fibras e vegetais são fatores amplamente associados ao ganho de peso — independentemente da fonte específica de gordura.
Além disso, organizações como a Organização Mundial da Saúde recomendam priorizar gorduras insaturadas em substituição às saturadas e eliminar o consumo de gorduras trans industriais. Nesse contexto, óleos vegetais como o de soja continuam sendo considerados alternativas mais adequadas que banha ou manteiga em excesso.
Debate científico continua
O estudo reacende um debate antigo sobre o equilíbrio entre ômega-6 e ômega-3 na alimentação moderna. Enquanto o consumo de óleos vegetais aumentou nas últimas décadas, a ingestão de fontes naturais de ômega-3, como peixes e sementes, permaneceu estável ou caiu.
Pesquisadores defendem que mais estudos clínicos em humanos são necessários para estabelecer relação direta entre o consumo habitual de óleo de soja e o ganho de peso. Até lá, a recomendação permanece a mesma: moderação e variedade alimentar.
Em vez de apontar um único ingrediente como vilão, especialistas reforçam que a qualidade global da dieta — e não apenas um componente isolado — é o principal determinante da saúde metabólica.
