Mesmo após cessar-fogo envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, empresas mantêm operações restritas e aguardam garantias concretas de segurança na principal rota energética do mundo
Tráfego tímido expõe incerteza no pós-cessar-fogo
A liberação da navegação no estreito de Hormuz pelo Irã marcou um primeiro passo rumo à normalização da circulação marítima na região, mas os dados iniciais revelam um cenário ainda distante da estabilidade. O fluxo permanece reduzido, mesmo após o anúncio de uma trégua de duas semanas entre Estados Unidos, Israel e Irã — acordo que, em tese, deveria destravar uma das rotas mais estratégicas para o comércio global de energia.
De acordo com o sistema de monitoramento marítimo MarineTraffic, apenas duas embarcações cruzaram o estreito nesta quarta-feira (8), poucas horas após a formalização do cessar-fogo. “O navio NJ Earth, de propriedade grega, cruzou o estreito às 8h44 (horário de Greenwich, 5h44 de Brasília), enquanto o Daytona Beach, de bandeira liberiana, transitou mais cedo, às 6h59 (3h59 de Brasília)”, informou a plataforma em publicação nas redes sociais.
Ambas as embarcações partiram do porto iraniano de Bandar Abbas. Apesar do movimento pontual, o cenário geral ainda é de forte retração. Informações da empresa Kpler indicam que, na véspera, cerca de 187 navios-tanque — transportando aproximadamente 172 milhões de barris de petróleo e derivados — permaneciam na região, muitos deles sem iniciar deslocamento.
A RELEVÂNCIA DO ESTREITO DE ORMUZ

Acúmulo de embarcações pode levar semanas para ser dissipado
A lentidão na retomada das operações é explicada, em parte, pelo volume represado de embarcações no Golfo Pérsico. Estimativas apontam que mais de mil navios oceânicos permanecem na área, o que exigiria semanas para normalização, mesmo sob condições ideais.
Para Daejin Lee, diretor global de pesquisa da Fertmax FZCO, o prazo do cessar-fogo é insuficiente para restabelecer a confiança do setor. “Uma janela de 14 dias é simplesmente curta demais para restaurar o nível de confiança necessário para desfazer completamente a incerteza, particularmente para rotas de carregamento do golfo Arábico”, avaliou.
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, a navegação na região sofreu um colapso significativo. Entre 1º de março e 7 de abril, apenas 307 embarcações cruzaram o estreito, o que representa uma queda de 95% em relação aos níveis habituais.
Irã condiciona passagem a coordenação sob sua supervisão
O governo iraniano estabeleceu condições claras para permitir o trânsito marítimo. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, Teerã assumirá a coordenação das passagens pelo estreito, desde que cessem os ataques por parte de Israel e dos Estados Unidos.
Nesse contexto, o país comprometeu-se a suspender suas ações militares e garantir a travessia segura das embarcações, em articulação com suas forças armadas e respeitando limitações operacionais. O modelo, no entanto, ainda levanta dúvidas no setor privado quanto à previsibilidade e à segurança efetiva da rota.
Setor marítimo adota postura conservadora
A reação das companhias de navegação tem sido marcada por prudência. Para analistas, o trânsito pontual registrado pode indicar uma retomada gradual, mas ainda não configura uma reabertura consolidada.
“O trânsito do NJ Earth pode ser um sinal inicial de movimentação, mas ainda é cedo demais para dizer se isso reflete uma reabertura mais ampla motivada pelo cessar-fogo ou uma exceção previamente aprovada”, afirmou Ana Subasic, da Kpler, em entrevista à AFP.
Executivos do setor reforçam que a ausência de protocolos claros impede decisões mais ousadas. Jakob Larsen, diretor de segurança da associação Bimco, destacou que a coordenação entre os governos envolvidos será determinante. “Deixar o Golfo sem coordenação prévia com os EUA e o Irã implicaria risco elevado e não seria aconselhável”, afirmou.
Durante o período de hostilidades, ao menos 18 embarcações foram atingidas por ataques atribuídos ao Irã, o que reforça a cautela das empresas.
Gigantes do transporte aguardam garantias antes de retomar operações
Grandes operadoras globais seguem evitando alterações em suas rotas. A dinamarquesa Maersk informou que mantém postura conservadora. “Neste momento, adotamos uma abordagem cautelosa e não estamos fazendo nenhuma alteração em serviços específicos”, declarou a companhia à Reuters.
A estratégia tem incluído o redirecionamento logístico para portos alternativos, como Jeddah (Arábia Saudita), Salalah e Sohar (Omã), além de Khor Fakkan (Emirados Árabes Unidos), com posterior transporte terrestre das cargas.
Já a alemã Hapag-Lloyd estima que a normalização do fluxo marítimo pode levar entre seis e oito semanas. “Mesmo que um cessar-fogo tenha sido acordado durante a noite, eu diria que é justo afirmar que o conflito no Oriente Médio ainda está prejudicando severamente o transporte marítimo, mas também as cadeias de suprimentos”, afirmou o CEO Rolf Habben Jansen.
Esforços internacionais buscam garantir segurança da rota
Diante do impasse, organismos internacionais e governos articulam medidas para assegurar a navegação. A Organização Marítima Internacional (OMI) informou que trabalha na criação de um mecanismo voltado à “segurança do trânsito” na região.
Na esfera política, o presidente da França, Emmanuel Macron, declarou que cerca de 15 países participam de uma iniciativa coordenada para viabilizar uma missão de caráter defensivo. “Cerca de 15 países estão atualmente mobilizados e participando do planejamento, sob a liderança da França, para viabilizar a implementação desta missão estritamente defensiva em coordenação com o Irã, a fim de facilitar a retomada do tráfego”, afirmou.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também indicou apoio ao processo, ainda que sem detalhar os termos da atuação. “Vamos carregar suprimentos de todos os tipos e simplesmente ‘ficar por perto’ para garantir que tudo corra bem”, escreveu em sua rede social.
Enquanto isso, países como Reino Unido e Coreia do Sul discutem estratégias com o setor privado para viabilizar operações seguras. Já a Itália descartou participação em eventual coalizão sem respaldo das Nações Unidas. “Não está na pauta. Já dissemos que não enviaremos navios a menos que haja uma iniciativa das Nações Unidas”, declarou o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini.
A União Europeia, por sua vez, adotou postura cautelosa. “Recebemos a notícia do cessar-fogo. Estamos comemorando. Como a Alta Representante (Kaja Kallas) disse, temos uma janela em termos de mediação que precisa permanecer aberta, e a partir daí seguimos em frente”, afirmou o porta-voz Anouar El Anouni.
Apesar dos avanços diplomáticos, o restabelecimento pleno do fluxo marítimo em Hormuz ainda depende de garantias concretas — fator que mantém o setor em compasso de espera diante de uma das regiões mais sensíveis do comércio global.
(Com AFP e REUTERS)



