O primeiro espelho que me ensinou alguma coisa não ficava em casa.
Ficava na venda do seu Antero.
Pequeno, moldura escurecida, pendurado num prego inclinado para a esquerda. Quem entrava para comprar querosene ou açúcar mascavo sempre dava uma olhada rápida, e quase sempre saía reclamando:
Esse espelho me deixa mais feio.
Seu Antero respondia com calma:
O espelho não faz ninguém feio. Só mostra o ângulo errado.
Eu era menino e não entendia. Um dia subi numa banqueta para me enxergar melhor. A imagem apareceu torta, estranha. Levei um susto.
Mãe, eu sou assim?
Ela riu. Seu Antero levantou-se devagar, endireitou o prego e disse:
Agora olha.
Olhei.
Era eu outra vez.
Às vezes não é você que está errado. É só o jeito que está se olhando.
Guardei aquilo sem saber que guardava.
A vida passou. Vieram responsabilidades, filhos, despedidas, conquistas e perdas. Em muitos momentos senti que o espelho da vida estava torto. Nos fracassos, eu me via menor. Nas tristezas, insuficiente. Em algumas derrotas, quase acreditei naquele reflexo diminuído.
Então me lembrava do prego.
Endireitar o prego era ajustar o pensamento.
Sábado passado fui ao aniversário do meu cunhado Welinton. Fazia tempo que não o via. Notei primeiro o brilho no olhar. Depois, o abraço, ainda forte, carregado de afeto antigo.
O rosto dele trazia os sinais dos 79 anos. Como o meu traz os 81.
O salão da festa era cercado de espelhos enormes, do chão ao teto. Multiplicavam as mesas, repetiam as pessoas, ampliavam o espaço como se cada um tivesse um duplo silencioso ao lado.
Em certo momento fiquei sozinho diante de um deles.
Não era um reflexo apressado. Era inteiro.
Fazia muito tempo que eu não me via assim, completo, sem cortes. O que vi foi um homem ainda alto, mas com os ombros levemente curvados. Cabelos brancos rareando. Rosto sulcado por linhas que não estavam ali por acaso.
Não diria acabado.
Mas, sem dúvida, velho.
Ali não havia prego torto. O vidro era plano. Fiel. Não havia distorção para culpar.
Era aquilo mesmo.
Senti não tristeza, mas consciência. Como quem reencontra um velho conhecido e percebe que ambos mudaram.
No reflexo, atrás de mim, vi Welinton também inteiro. Também marcado. Também digno.
E pensei:
O tempo não perdoa.
Mas também revela.
Na juventude, o espelho pode mentir pelo ângulo.
Na maturidade, começa a mostrar marcas.
Na velhice, revela a história.
O menino da venda ainda estava ali. O jovem sonhador também. O homem que trabalhou, errou, acertou, amou, perdeu e insistiu quando parecia impossível, todos estavam reunidos naquele rosto.
O espelho não mostrava apenas rugas.
Mostrava permanência.
Enquanto a festa seguia, observei os mais jovens passando apressados diante do vidro. Olhavam-se rápido. Talvez ainda não saibam que um dia procurarão, naquele mesmo reflexo, vestígios do que foram.
Nós demorávamos mais.
Como quem lê um livro já vivido.
Na hora de ir embora, passei outra vez diante do espelho. Desta vez, não procurei juventude.
Procurei verdade.
E encontrei.
Saí de mãos dadas com minha esposa. No vidro da porta, nosso reflexo misturava-se às nuvens de uma chuva que se aproximava. Dois corpos envelhecidos. Uma cumplicidade amadurecida no tempo.
O espelho do armazém me ensinou a não acreditar nas distorções.
O espelho da festa me ensinou a aceitar a revelação.
Hoje sei: felicidade talvez não esteja em parecer jovem.
Talvez esteja em sustentar o próprio olhar, inevitável, honesto, e não desejar outro rosto. Reconhecê-lo como obra construída até aqui.
Porque o espelho, quando está reto, não pergunta quantos anos temos.
Pergunta se vivemos.
E se conseguimos sorrir para quem fomos e dizer, com serenidade:
Fiz o melhor que pude.
Se a resposta for sim, então não é apenas o espelho que está ajustado.
É a alma.
E quando a alma está reta, nenhuma ruga pesa.
Há história.
Há verdade.
Há gratidão.
E esse é o mais belo reflexo que alguém pode carregar ao sair, não apenas de um salão de festa, mas da própria vida.

Observador do vivido, Wilton faz da crônica um espelho da alma.

