Há datas no calendário que não significam a mesma coisa para todos.
O carnaval é uma delas.
Para alguns, ele explode nas ruas, toma conta das avenidas, transforma a cidade em espetáculo.
Para outros, é apenas um feriado prolongado, tempo de viagem, descanso, reencontro com a família, silêncio no interior.
O Brasil não vive o carnaval de um único jeito.
Em lugares onde a tradição pulsa forte, a festa é quase um personagem da própria cidade.
Em muitos outros cantos do país, porém, ele passa mais como pausa do que como euforia.
Ainda assim, algo muda.
A rotina afrouxa.
O relógio perde um pouco da autoridade.
Os compromissos se rearranjam.
Alguns vestem fantasias.
Outros vestem roupas confortáveis para pegar estrada.
Uns buscam multidão.
Outros, descanso.
E, seja no barulho da avenida ou na calmaria da varanda, o carnaval sempre carrega uma pequena licença coletiva:
viver de modo diferente do habitual.
E é justamente nessa licença que mora o ponto mais delicado.
O que começa como leveza pode escorregar para o descuido.
O que parecia simples distração pode se transformar em excesso.
E o excesso, quase sempre, cobra.
O carnaval amplia tudo.
O que já é luz, brilha mais.
O que já é sombra, ganha palco.
No meio da festa, ou mesmo longe dela, algo acontece em silêncio:
As escolhas.
Escolhemos com quem estar.
Escolhemos o que ingerir.
Escolhemos até onde ir.
Escolhemos como tratar o outro, e a nós mesmos.
Há decisões que duram apenas uma noite.
Outras atravessam anos.
Principalmente entre os jovens, a festa pode ser confundida com prova de coragem, de popularidade, de liberdade absoluta.
Mas liberdade não é ausência de limite.
É consciência do limite.
Quando a alegria se converte em irresponsabilidade, o preço não aparece na mesma hora.
Ele chega depois.
No constrangimento.
Na culpa silenciosa.
Na consequência que ninguém fotografou.
Existem excessos materiais, o corpo levado além do que suporta.
E existem excessos morais, o respeito deixado de lado, a palavra impensada, a intimidade banalizada, a dignidade trocada por aplauso momentâneo.
Uma hora de euforia pode gerar marcas difíceis de apagar.
Não se trata de condenar a festa.
Nem de negar a cultura, a música, a criatividade popular.
O carnaval também é arte, encontro, expressão legítima de um povo.
O problema não é a celebração.
É a inconsciência.
Enquanto se investe tanto em brilho e distração, há realidades que seguem invisíveis.
Gente que sofre longe dos holofotes.
Carências que não entram na programação da folia.Isso, por si só, já convida à reflexão.
Por fora, tudo pode parecer igual:
risos,
fotos,
abraços,
canções repetidas.
Por dentro, não.
Há quem saia desses dias com histórias boas para contar.
Há quem volte apenas cansado.
E há quem carregue um peso que não sabe explicar.
Porque existem dois tipos de alegria:
a que termina junto com a música
e a que permanece quando o som acaba.
As ruas esvaziam.
As estradas se enchem de volta.
As fantasias retornam ao armário.
As malas são desfeitas.
É nesse momento que tudo se revela:
quando o espelho devolve o olhar sem maquiagem,
quando o corpo sente o cansaço real,
quando a consciência pergunta, baixinho, se valeu a pena.
Se, apesar do desgaste, há paz, valeu.
Se sobra leveza, mesmo com olheiras, valeu.
Se ninguém foi ferido, nem você, nem o outro, a alegria cumpriu seu papel.
Mas se o silêncio incomoda demais,
talvez alguma linha tenha sido cruzada.
O carnaval passa rápido.
Como tudo que é intenso.
O que fica é a lembrança
e a direção que nossas escolhas deram ao futuro.
Não se trata de viver sob medo.
Nem de transformar festa em culpa.
Trata-se apenas de lucidez.
Porque, no fim, a pergunta não é onde você esteve
nem quantas noites atravessou acordado.
A pergunta é simples, quase sussurrada:
quando tudo acabou,
você continuou inteiro?
E essa resposta, cada um carrega consigo…
em silêncio.




