Menos de um dia após o senador defender “pacificação”, deputado amplia ofensiva nas redes; conflito se espalha entre influenciadores e evidencia fragilidade na articulação política do grupo
Nova ofensiva amplia tensão interna
A tentativa de conter o desgaste interno no bolsonarismo durou pouco. Em menos de 24 horas após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgar um vídeo em que se disse “angustiado” com a disputa entre aliados e pediu “pacificação”, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) voltou a atacar o também deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
Na noite de domingo (5), Eduardo publicou um vídeo do influenciador Kim Paim, que acusa Nikolas de manipular o funcionamento das redes sociais em desfavor do bolsonarismo.
“Quem acha que Eduardo está procurando picuinhas por bobagem, não entende como funciona as redes sociais. Como assim, Mário? Há um bom tempo que Nikolas está treinando o algoritmo para dar visibilidade a todos que odeiam o bolsonarismo. Óbvio, ele não faz de forma aberta. Ele pega uma postagem contra o PT, ou que não tenha crítica aberta ao bolsonarismo e comenta e curte. Isso te parece inofensivo, não é mesmo? Mas, deixa eu te explicar uma coisa”, afirma.
Segundo o influenciador, essa prática teria efeito direto na amplificação de adversários políticos: “quando Nikolas faz isso, ele pega o seu imenso engajamento, empresta a essa pessoa que está pregando voto nulo ou difamando a família Bolsonaro em outras postagens, é tão eficiente quanto fazer patrocínio para para pago”.
Na sequência, acrescenta: “Na prática, o Nikolas está treinando o algoritmo para dar relevância aos adversários do Bolsonaro”.
Ao compartilhar o conteúdo, Eduardo reforçou a crítica: “Por isso odeiam tanto o Kim Paim. Vale a pena assistir tudo para entender o que está ocorrendo”.
Influenciadores entram no conflito
A disputa rapidamente extrapolou o campo político e alcançou influenciadores alinhados à ultradireita, que passaram a se dividir publicamente.
O economista Rodrigo Constantino criticou a postura de Eduardo ao confrontar Nikolas logo após o apelo por unidade feito por Flávio. “Se Eduardo posta um vídeo do Kim Paim atacando Nikolas no dia seguinte em que seu irmão mais velho gravou um vídeo pedindo paz e fim de picuinhas, isso quer dizer que ele não respeita a autoridade do candidato escolhido pelo pai. Triste isso”, escreveu.
Já o deputado Mario Frias (PL-SP), aliado de Eduardo, endossou as acusações, provocando reação do vereador Guilherme Kilter (Novo-PR), que saiu em defesa de Nikolas.
“Agora entendi os crimes do Nikolas: 1. Dar risada 2. Treinar o algoritmo – seja lá o que isso signifique. Com certeza justifica virar todos os canhões para ele ao invés do escândalo do INSS, Banco Master, roubos do Lula”, ironizou.
A resposta veio de Paulo Figueiredo, aliado próximo de Eduardo, que elevou o tom ao mencionar a existência de estruturas digitais ligadas ao grupo bolsonarista.
“Quer dizer, deixa eu corrigir, o Nikolas e muitos dos que agora estão em sua defesa acusam sim pessoas de um novo ‘gabinete do ódio’ fazendo ‘ataques’ a ele, algo que já mandou muita gente pra a prisão. Mas, fora isso, só ouço críticas e reclamações”, afirmou.
O embate ganhou novos contornos quando o blogueiro Allan dos Santos divulgou contatos associados ao banqueiro Daniel Vorcaro, incluindo o nome de Nikolas, em referência ao uso de aeronave durante a campanha de 2022.
“Nenhum dos filhos de Jair Messias Bolsonaro”, escreveu, ao listar aliados políticos.
Apelo por união e desgaste político
Em meio à escalada da crise, Flávio Bolsonaro tentou atuar como mediador. Em vídeo publicado na madrugada de domingo, classificou o conflito como “muito angustiante” e alertou para os riscos políticos da divisão.
“É muito angustiante ver lideranças do nosso lado se digladiando enquanto a gente tem um país para resgatar”, declarou.
O senador também advertiu que “esse é o tipo de confusão que não tem vencedor, todo mundo sai perdendo”, em um esforço para reduzir os danos à sua articulação política.
O apelo ocorre em um momento sensível, no qual Flávio busca consolidar sua pré-candidatura à Presidência diante de um cenário interno fragmentado.
Origem do conflito
A tensão entre Eduardo e Nikolas teve início após o deputado paulista criticar o mineiro por interagir com conteúdos que, segundo ele, não apoiariam a candidatura de Flávio.
A reação de Nikolas — resumida a um “kkk” — foi interpretada como desdém e agravou o conflito. Eduardo respondeu com acusações diretas, atribuindo ao colega motivações pessoais e falta de lealdade.
“Os holofotes e a fama te fizeram mal”, escreveu.
Ele também afirmou que Nikolas estaria colocando o senador “numa espiral de silêncio”, ao limitar manifestações públicas de apoio, e classificou o comportamento do ex-aliado como “triste”.
Fragmentação interna se aprofunda
O episódio reflete uma crise mais ampla no campo bolsonarista, que vem se intensificando desde o fim de 2025, com epicentro na disputa em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.
As divergências alcançam inclusive o núcleo familiar. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem resistido a declarar apoio público ao enteado, o que gerou críticas — diretas e indiretas — de integrantes da família.
Em resposta, Michelle afirmou manter autonomia política e rejeitou alinhamentos impostos, ampliando o desgaste interno.
As tensões também envolvem estratégias eleitorais. A ex-primeira-dama criticou articulações conduzidas por Flávio, classificando algumas iniciativas como parte de um “jogo sujo”.
Dentro do grupo, sua postura é vista por aliados dos filhos do ex-presidente como mais um fator de instabilidade, agravando o cenário de fragmentação e dificultando a construção de unidade em torno de um projeto político comum.



