Ciclo global da moeda americana impulsiona rotação de portfólios
O avanço do investimento estrangeiro no mercado acionário brasileiro no início do ano não é um fenômeno isolado, mas parte de um movimento estrutural do sistema financeiro internacional. A leitura predominante entre analistas é de que o enfraquecimento do dólar inaugura uma nova fase de realocação de recursos, favorecendo economias emergentes — entre elas o Brasil.
Ao longo das últimas décadas, a moeda dos Estados Unidos alternou períodos prolongados de valorização e perda de força, com ciclos que se estendem de seis a 12 anos. O mais recente deles foi marcado por uma apreciação intensa.
“Nós tivemos um período de dólar forte entre 2011 e 2024, com pico entre 2022 e 2023. Foram quase 15 anos em que os investidores ganharam muito dinheiro nos Estados Unidos e as carteiras ficaram muito concentradas em ativos norte-americanos”, afirma Gina Baccelli, estrategista-sênior do Itaú, à Folha.
Esse movimento se sustentou no chamado “excepcionalismo norte-americano”: crescimento econômico consistente, desempenho robusto das bolsas e o status do dólar como principal reserva global. A atratividade dos títulos do Tesouro dos EUA — considerados de baixíssimo risco — foi ampliada com a alta dos juros promovida pelo Federal Reserve, especialmente após a pandemia, quando a moeda passou a ser vista como porto seguro.
Geopolítica e diversificação cambial redesenham o mapa financeiro
Enquanto o dólar atingia máximas históricas, eventos geopolíticos aceleravam um processo silencioso de diversificação de reservas. A exclusão da Rússia do sistema Swift e o congelamento de ativos internacionais após a invasão da Ucrânia funcionaram como ponto de inflexão.
“Esse movimento desencadeou um grande processo de diversificação de moedas globais. O exemplo da Rússia fez com que muitos bancos centrais buscassem outras reservas cambiais para não ficar refém do dólar”, diz Luis Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management.
A volta de Donald Trump à Casa Branca também contribuiu para o reposicionamento das carteiras. Medidas comerciais agressivas e tensões com parceiros tradicionais desgastaram a percepção institucional dos Estados Unidos. Ainda assim, segundo Baccelli, o republicano não inaugurou a tendência de queda da moeda.
“Ele foi o catalisador. Estar muito investido em um ativo só gera desconforto, e o desconforto faz com que o mercado procure diversificação. Trump acelerou o processo.”
Parte do mercado avalia ainda que um dólar mais fraco favorece a própria economia americana ao reduzir o déficit externo. “O déficit em transações correntes dos EUA em 2024 foi de nada menos que US$ 1,2 trilhão. Isso representa metade do PIB do Brasil só em déficit”, afirma o economista André Perfeito. “Contra isso apenas um dólar mais fraco. [Barack] Obama e [Joe] Biden tentaram isso via juros baixos e não funcionou. Sobrou para Trump fazer na porrada o que eles não conseguiram de maneira mais sutil.”
Emergentes voltam ao radar — e o Brasil aparece como oportunidade
A redistribuição de recursos não implica abandono dos ativos americanos, ainda vistos como estratégicos, sobretudo no setor de tecnologia. O que ocorre é uma busca por mercados capazes de oferecer retorno, preços descontados e menor nível de endividamento.
“Começaram a se perguntar: quem é que tem yield? Quem é que tem um mercado barato, com potencial para destravar valor? Quem tem menos endividamento, quem tem mais commodities? Quem não é um mercado de inteligência artificial, mas pode ser fornecedor da cadeia de valor via minerais críticos, via infraestrutura?”, diz Ferreira. “A resposta para todas essas perguntas passa pelos mercados emergentes e, nessa linha, pelo Brasil, que tem Selic alta e valuations baratos.”
Apesar do fluxo expressivo, o peso brasileiro ainda é reduzido nos índices globais. O país responde por cerca de 4% do MSCI Emerging Markets, cuja composição é liderada por Taiwan, China, Coreia do Sul e Índia. Mesmo assim, essa fatia representa bilhões de reais quando considerada a magnitude dos recursos em rotação.
Eleição e juros definem o ritmo do fluxo
A tendência de diversificação é vista como estrutural e de longo prazo, mas o ambiente doméstico segue no radar. A eleição presidencial e, principalmente, a condução da política fiscal a partir de 2027 são apontadas como fatores de atenção.
“Por bem ou por mal, a eleição vai entrar na pauta. O investidor estrangeiro vai olhar para isso, mas não acredito que será o maior determinante para que o fluxo continue. Fundos emergentes são pequenos perto dos globais, que, acredito, devem ter movido só 2% do dinheiro grosso. E o Brasil é só 4% do MSCI. O resultado pode ou não afetar, mas não é isso que está acontecendo nesse primeiro trimestre”, diz Baccelli.
No curto prazo, o início do ciclo de cortes da Selic pode alterar a dinâmica interna do mercado. A queda dos juros tende a estimular a migração de investidores locais da renda fixa para a bolsa e, ao mesmo tempo, reforçar o interesse externo.
“Para o estrangeiro, a queda do juro também é um catalisador, porque ele vê que isso melhora a economia e traz resultados melhores para as empresas”, afirma a estrategista. “Mas é interessante notar que o estrangeiro compra blue chips, como Petrobras e Vale, porque são as mais líquidas. Talvez ele aposte em empresas cíclicas com a queda da Selic.”
No tabuleiro global de capitais, o Brasil volta a ocupar uma posição relevante — ainda que pequena em participação relativa — em um momento em que a fraqueza do dólar redefine rotas de investimento e reequilibra o apetite por risco.
(Com Folha de S.Paulo)



