Presidente interina afirma que país deve resolver conflitos sem “ordens de Washington”, enquanto governo anuncia novas libertações de presos políticos e sinaliza reaproximação diplomática com os Estados Unidos
Discurso contra influência estrangeira
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declarou no domingo (25) que o país não deve mais aceitar orientações externas sobre seus rumos políticos. Ao falar a trabalhadores do setor petrolífero no estado de Anzoátegui, a líder afirmou que é hora de a própria nação conduzir a resolução de seus impasses internos.
“Chega de ordens de Washington para os políticos venezuelanos. Deixemos que a política venezuelana resolva nossas diferenças e conflitos internos. Chega de potências estrangeiras”, disse. Ela também mencionou os impactos de crises políticas recentes e afirmou que a República “pagou caro” ao enfrentar o que classificou como consequências do “fascismo e do extremismo” no país.
Delcy assumiu o comando do governo em 3 de janeiro, após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, que anunciaram responsabilidade sobre a condução do país no período posterior.
Pressões de Washington e acordos energéticos
Desde que chegou ao poder, a presidente interina enfrenta pressão direta do presidente norte-americano, Donald Trump. Apesar disso, os dois governos firmaram entendimentos na área de energia, e Caracas concordou com a libertação de presos políticos.
Segundo a organização Foro Penal, mais de 100 detentos considerados presos políticos foram soltos no domingo, em um processo descrito como gradual. Delcy já havia afirmado, em meados de janeiro, que não teme um confronto diplomático com os EUA. “Se um dia, como presidente interina, eu tiver que ir a Washington, irei de pé, caminhando, não rastejando”, declarou na ocasião.
Trump, por sua vez, descreveu a líder venezuelana como “formidável” e disse que, sob sua condução, “tudo está indo muito bem”. A Casa Branca informou que ela foi convidada a visitar Washington, embora ainda não haja data definida.
Reaproximação diplomática em curso
Com as relações diplomáticas rompidas desde 2019, Estados Unidos e Venezuela ensaiam uma reaproximação classificada como gradual. Na quinta-feira, Washington designou um novo chefe para sua missão diplomática em Caracas e avalia a reabertura da embaixada no país.
Os EUA também declararam responsabilidade sobre a gestão das vendas de petróleo venezuelano no período pós-Maduro, ampliando sua influência sobre o setor estratégico da economia local.
Divergências sobre número de libertações
O governo venezuelano prometeu um “número significativo” de libertações de presos políticos, mas entidades de direitos humanos e a oposição apontam lentidão no processo. Familiares de detentos seguem acampados em frente a unidades prisionais, aguardando notícias.
“O Foro Penal verificou 104 libertações de presos políticos na Venezuela hoje. Continuamos verificando outras libertações”, escreveu nas redes sociais o diretor da organização, Alfredo Romero, na noite de domingo. Mais cedo, ele havia informado “pelo menos 80” solturas ao longo do dia.
O governo afirma ter registrado 626 libertações desde dezembro, dado que Delcy pretende submeter à verificação do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk. O número, porém, diverge do levantamento do Foro Penal, que contabiliza 375 libertações no mesmo período.
Apelo por acordo político
A nova rodada de solturas ocorre após Delcy defender, no sábado (24), a construção de um “acordo” com a oposição em nome da paz. Em discurso no estado de La Guaira, ela afirmou que divergências políticas não devem impedir entendimentos nacionais.
“Não pode haver diferenças políticas ou partidárias quando se trata de paz na Venezuela. Devemos nos unir apesar de nossas diferenças e chegar a acordos”, disse.
Contexto de repressão e prisões
A Venezuela enfrenta há anos um cenário de controle estatal rígido. Protestos espontâneos contra a reeleição contestada de Maduro, em 2024, terminaram em repressão e na detenção de mais de 2 mil pessoas em 48 horas. O país também vive sob estado de emergência, que prevê punições para quem apoiar ações dos Estados Unidos.
Entre as libertações recentes está Rafael Tudares, genro de Edmundo González Urrutia, adversário de Maduro nas eleições de 2024. Ele estava preso havia mais de um ano, sob acusações de terrorismo, classificadas por González como “retaliação”. Também foram soltos o ex-candidato presidencial Enrique Márquez, a ativista de direitos humanos Rocío San Miguel e o jornalista Roland Carreño.
Ainda permanecem detidos nomes ligados à oposição, como Juan Pablo Guanipa, aliado de María Corina Machado, além dos ativistas Javier Tarazona e Freddy Superlano, presos sob acusações como terrorismo, traição e participação em protestos.
(Com AFP )



