Incorporação por banco federal surge como hipótese, mas enfrenta resistência política e impasses regulatórios
Nos bastidores do sistema financeiro, ganhou força nas últimas semanas uma alternativa considerada sensível pelo governo do Distrito Federal: a eventual federalização do BRB (Banco de Brasília). Embora distante do cenário defendido pelo Palácio do Buriti, a incorporação da instituição por um banco público federal passou a circular como possibilidade entre banqueiros e executivos do setor.
A hipótese não lidera a lista de soluções para a crise enfrentada pelo banco distrital. Ainda assim, a absorção por uma instituição como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal não é descartada por interlocutores do mercado. Operações semelhantes já ocorreram no passado, como no caso do banco Votorantim.
Privatização agrada ao mercado; política resiste à perda de controle
A eventual transferência do controle do BRB à União encontra forte resistência na esfera política local. Parlamentares e integrantes do governo do DF defendem a manutenção do banco sob controle distrital. Nos círculos financeiros, porém, há quem veja na privatização a alternativa mais alinhada às expectativas do mercado.
Uma fonte envolvida nas negociações afirma que a solução considerada mais favorável pelo setor bancário seria a venda da instituição. O desafio imediato, no entanto, é a recomposição de capital. Dependendo da modelagem escolhida, a necessidade de aporte pode alcançar R$ 6 bilhões.
Empréstimo estruturado e compra de títulos estão na mesa
Entre as saídas analisadas, a principal envolve um empréstimo estruturado com participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de um consórcio formado pelos maiores bancos do país. O modelo prevê que os recursos sejam concedidos ao governo do Distrito Federal, que os utilizaria para capitalizar o BRB, oferecendo garantias sob a gestão de Ibaneis Rocha. A operação depende de aval da Câmara Legislativa do DF, e há previsão legal para esse tipo de mecanismo.
Outra alternativa considerada é a aquisição, por grandes bancos, de letras financeiras subordinadas emitidas pelo BRB — instrumentos de renda fixa utilizados para reforçar o capital das instituições. Essa possibilidade, contudo, encontra maior resistência entre os potenciais compradores.
Também foi discutida uma oferta de aumento de capital por meio da emissão de novas ações. A proposta perdeu tração diante do desgaste reputacional enfrentado pelo banco após seu envolvimento com o Banco Master, posteriormente liquidado pelo Banco Central.
Risco reputacional e incertezas ampliam cautela
Ainda não há clareza sobre a dimensão dos impactos decorrentes das operações realizadas com o banco comandado por Daniel Vorcaro. Entre os pontos sob escrutínio está a aquisição de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito sem lastro, o que ampliou a percepção de risco.
Hoje, uma das principais barreiras para uma solução envolvendo bancos federais é a ausência de autorização formal da União — controladora do Banco do Brasil e da Caixa — para que as instituições examinem ativos ou estruturem eventual apoio ao BRB. Até o momento, os dois maiores bancos públicos não adquiriram carteiras de crédito do banco distrital, ao contrário de instituições privadas que participaram de operações pontuais para aliviar a pressão de liquidez.
Procurado, o governador Ibaneis Rocha minimizou as especulações. Disse que a imprensa “especula muito” e acrescentou: “Sobre o banco quem fala é o Nelson”, em referência ao presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza.
Federalização é vista como remota, mas não impossível
Interlocutores com conhecimento interno da instituição avaliam que a federalização é, neste momento, uma hipótese remota — cenário que, segundo eles, era mais plausível semanas atrás. Ainda assim, reconhecem que o desfecho poderia ganhar tração caso o banco venha a ser submetido a algum regime especial pelo Banco Central, o que até agora não ocorreu.
Em nota, o BRB afirmou que “qualquer estimativa de necessidade de capital considerará integralmente todos os efeitos identificados na avaliação dos fundos e ativos repassados” pelo Master.
O banco acrescentou: “Essa avaliação integra a apuração do Banco Central e, também, a investigação independente conduzida pelo escritório Machado Meyer Advogados com apoio técnico da Kroll. Após o encerramento das apurações será estabelecido o valor do aporte necessário para cobrir eventuais perdas”.
Entre as alternativas atualmente analisadas, segundo a instituição, estão a venda das carteiras oriundas do Master; a criação de um fundo com imóveis do controlador; a contratação de empréstimo junto ao FGC ou a um consórcio de bancos; e o aporte direto dos controladores.
“O BRB reafirma seu compromisso com a transparência, a segurança de seus clientes, a manutenção da solidez e a continuidade de suas operações”, concluiu o banco.
(Com FolhaPress)



