A expectativa é de um novo aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic, que passará para 13,25% ao ano, na primeira reunião presidida por Gabriel Galípolo.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve seguir, na próxima quarta-feira (29), a estratégia conservadora de elevação de juros iniciada em dezembro de 2024.
De acordo com economistas ouvidos pela Folha, o plano de ação delineado pelo colegiado no final do ano passado – de implementar aumentos consecutivos na Selic em janeiro e março – deve ser mantido. No entanto, há a percepção de que o Copom deixará em aberto os próximos passos a partir do segundo trimestre, a fim de preservar flexibilidade na condução da política monetária.
No mercado financeiro, não foram observadas mudanças significativas no cenário econômico que justifiquem alterações na estratégia atual.
Cenário de incertezas e inflação
Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina no Goldman Sachs, avalia que o ritmo das elevações da taxa básica está bem ajustado. Ele destaca que o Copom sinalizou que há uma “barra alta” para alterar o chamado forward guidance (orientação futura).
Atualmente, Ramos projeta que a Selic pode chegar a 15% até o final de 2025, mas não descarta a necessidade de elevações adicionais devido ao aumento das expectativas de inflação. Para 2027 e 2028, o Boletim Focus, divulgado em 20 de janeiro, estima índices de 3,90% e 3,58%, respectivamente – dados que, segundo Ramos, indicam perda de eficácia da política monetária.
Ramos também alerta sobre o risco de dominância fiscal, situação em que o controle da inflação escapa da autoridade monetária devido à expansão excessiva dos gastos públicos. “A política monetária é a âncora, enquanto a política fiscal é a corrente que arrasta essa âncora”, afirmou.
Estratégia do BC diante da resiliência econômica
Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS Global Wealth Management, considera que o Banco Central ainda precisa elevar os juros para “esfriar a economia” e controlar a inflação. Segundo ela, a Selic precisará alcançar pelo menos 16% para evitar que a inflação de 2026 fique significativamente acima da meta de 3%.
Apesar de indicadores econômicos mais fracos no varejo e nos serviços, que poderiam sugerir uma desaceleração, Srour ressalta que o risco fiscal continua elevado e as expectativas inflacionárias pioraram. Isso, segundo a economista, deve levar o Copom a adotar um tom mais duro em sua comunicação, mantendo a sinalização de curto prazo.
Riscos externos e reação do mercado
O economista Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, observa que o cenário externo permanece imprevisível, embora a recente trajetória de valorização do real e a redução do prêmio de risco tenham trazido alívio temporário.
Para ele, o Copom deve manter a Selic em 14,25% após março, interrompendo o ciclo de altas. Volpon acredita que o principal teste para Gabriel Galípolo no comando do BC será equilibrar o controle da inflação com a atividade econômica em meio à pressão do governo.
Outros especialistas, como Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, defendem que o Copom adote uma postura mais dependente de dados após março, evitando gerar ruídos no mercado financeiro. Ele projeta que a Selic chegará a 15% no final de 2025, estabilizando-se nesse patamar antes de possíveis cortes em 2026.
Debate sobre os impactos de juros elevados
O cenário de juros elevados até pelo menos 2028 tem gerado críticas. Carla Beni, professora da FGV e conselheira do Corecon-SP, classifica como preocupante a perspectiva de uma taxa real de juros entre 7% e 9% no longo prazo. “Isso é um assombro. Estamos caminhando para uma recessão profunda, comprometendo ganhos em emprego, renda e produtividade”, argumenta.
Além disso, Beni questiona a influência do mercado na política monetária e sugere que a publicação semanal do Boletim Focus seja revisada.
Da Redação/Clicknews
(Fonte: Folhapress)