Especialistas e autoridades destacam que colisões aéreas são eventos extremamente raros, especialmente em áreas com rígidos protocolos de segurança para diferentes tipos de voo.
No entanto, o recente acidente envolvendo uma aeronave comercial e um helicóptero militar nos Estados Unidos levanta questões sobre os desafios da gestão do tráfego aéreo na capital americana.
Na noite de quarta-feira (29/1), um helicóptero Black Hawk do Exército dos EUA, com três tripulantes a bordo, colidiu com um jato da American Airlines, que transportava 64 pessoas, momentos antes da aterrissagem no Aeroporto Nacional de Washington. Ambas as aeronaves caíram rapidamente nas águas geladas do Rio Potomac.
O espaço aéreo sobre Washington, D.C., é um dos mais movimentados e controlados do mundo, recebendo diariamente centenas de voos civis e militares, incluindo aqueles que transportam autoridades de alto escalão. Segundo John Strickland, especialista britânico em aviação, o elevado volume de tráfego na região não explica, por si só, como a colisão ocorreu. Ele compara a situação de Washington a outras metrópoles como Londres e Nova York, onde o gerenciamento dos fluxos aéreos é essencial para evitar incidentes.
Além do Aeroporto Nacional de Washington, há na região o Aeroporto Internacional Washington Dulles e o Aeroporto de Baltimore, exigindo uma coordenação rigorosa para garantir a separação segura entre as aeronaves. O desafio se intensifica devido à presença de áreas de acesso restrito, como o entorno da Casa Branca e do Capitólio.
O consultor de aviação Philip Butterworth-Hayes explica que a interseção entre sistemas de controle civil e militar torna esse espaço aéreo particularmente complexo. “Esse acidente ocorreu no ponto de convergência de diferentes sistemas de aviação, incluindo procedimentos específicos de aeroportos e regras militares e civis”, afirmou. Ele destaca que é justamente nessas zonas de fronteira entre diferentes regulamentos que os acidentes tendem a ocorrer.
“Este é o espaço aéreo mais monitorado do mundo. Você tem sistemas civis e governamentais em operação simultânea. O aeroporto Ronald Reagan, por exemplo, é propriedade do governo, algo raro”, acrescentou Butterworth-Hayes. “Esse deveria ser o espaço aéreo mais seguro do mundo, considerando a quantidade de agências de segurança que operam na região.”
O último acidente fatal com um avião comercial nos Estados Unidos ocorreu em fevereiro de 2009, reforçando a raridade desse tipo de evento. De acordo com o coronel aposentado da Força Aérea dos EUA Cedric Leighton, é comum que helicópteros militares realizem treinamentos noturnos na área para que seus pilotos se tornem proficientes no uso de instrumentos em condições de baixa visibilidade. Ele explicou que a unidade do Black Hawk acidentado é responsável pelo transporte de altos oficiais na capital americana, mas, no momento da colisão, apenas a tripulação estava a bordo.
Butterworth-Hayes destacou que apenas pilotos experientes são autorizados a treinar em um espaço aéreo tão congestionado. “Precisamos entender se todos os sistemas de segurança estavam ativados ou se a tripulação estava testando um novo procedimento ou rota”, disse ele.
O especialista em aviação Neil Hansford, baseado na Austrália, afirmou à BBC que a colisão levanta questões específicas para as autoridades de aviação dos EUA e pode resultar em uma revisão dos protocolos. Ele observou que esse tipo de acidente seria menos provável na Europa ou na Austrália, onde há regras mais rígidas para a definição de rotas aéreas.
John Strickland também apontou que a baixa velocidade do jato no momento da aproximação para o pouso aumentou sua vulnerabilidade. “Se um choque acontece nessa fase do voo, mesmo que a tripulação sobreviva, há pouco tempo para reação”, explicou. Segundo ele, a tragédia poderia ter ocorrido mesmo se a aeronave fosse de maior porte.
A investigação do acidente deve esclarecer as causas e indicar possíveis falhas no controle do tráfego aéreo da capital americana, além de eventuais mudanças nos protocolos de segurança para evitar incidentes semelhantes no futuro.
*Com BBC News