Especialistas apontam escalada da agressividade e falhas na prevenção; método de atropelamento e arrastamento se repete em episódios recentes
O carro, símbolo de mobilidade e status, tem sido ressignificado como uma arma de tortura e morte no sombrio cenário da violência de gênero no Brasil. Dois episódios recentes, separados pela geografia mas unidos pela crueldade do modus operandi, acenderam um debate urgente sobre a eficácia das políticas de proteção à mulher. Em Morro do Pilar (MG) e na capital paulista, o ato de arrastar vítimas por centenas de metros revela não apenas a letalidade, mas o desejo de aniquilação física e simbólica daquelas que decidiram exercer sua autonomia.
O carro como instrumento de tortura
Em Minas Gerais, o delegado David Nascimento conduz a investigação de um homem que arrastou a ex-namorada por cerca de 400 metros no último dia 15 de fevereiro. O crime, registrado por câmeras de segurança, ocorreu após a jovem se aproximar do veículo para evitar um conflito. Em um movimento brusco, o agressor acelerou, prendendo a vítima.
O caso ecoa o drama de Tainara Souza Santos, ocorrido em São Paulo. Atropelada e arrastada até a Marginal Tietê, Tainara teve as pernas amputadas e morreu após dias de agonia. Para a promotora Fabiana Dal’Mas, do Ministério Público de São Paulo, o método não é acidental: “É um método covarde que demonstra incapacidade de lidar com a rejeição”, afirma.
O ecossistema da impunidade e a “Validação” Digital
Um ponto comum entre os agressores é o histórico prévio. Em Minas, o suspeito já acumulava boletins de ocorrência por violência doméstica e possuía medidas protetivas contra si. A falha no sistema de monitoramento desses indivíduos é agravada por um fator moderno: a radicalização na internet.
Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB, aponta que a misoginia encontrou refúgio e estímulo em fóruns obscuros.
“Há grupos organizados em plataformas como Telegram e na deepweb que incentivam crimes contra mulheres. Homens que antes sentiam vergonha passam a encontrar validação nesses grupos”, alerta Recchia.
Esses espaços funcionam como câmaras de eco onde a violência é celebrada e orientações jurídicas são compartilhadas para burlar a lei.
Pactos de gabinete vs. realidade das ruas
No início de fevereiro, o Governo Federal anunciou um pacto nacional contra o feminicídio. Contudo, a recepção entre especialistas foi cética. Embora o simbolismo da união entre os Três Poderes seja relevante, a ausência de medidas práticas imediatas — como o combate direto à misoginia digital e a capacitação policial para evitar que tentativas de feminicídio sejam registradas como meras “lesões corporais” — é vista como uma lacuna crítica.
Os Desafios do Enfrentamento:
- Tipificação Correta: Combater a subnotificação que mascara a gravidade dos ataques.
- Monitoramento Real: Garantir que medidas protetivas não sejam apenas “papéis”, mas barreiras físicas (tornozeleiras e botões do pânico).
- Investigação Digital: Desmantelar redes de ódio que fomentam o extermínio de mulheres.
O feminicídio, reiteram os especialistas, não é uma “explosão momentânea”, mas o desfecho de uma lógica de controle. Conforme define Fabiana Dal’Mas: “Não são explosões momentâneas, mas expressão de uma lógica de controle sobre o corpo feminino”.



