Em entrevista, mulher confessa que inventou existência de vídeo de espancamento baseada em boatos; Polícia Civil de Santa Catarina conclui inquérito e aponta contradições em depoimento de adolescente
O desdobramento das investigações sobre a morte do cão Orelha, em Florianópolis, trouxe à tona o perigo da disseminação de informações inverídicas em redes sociais. Uma mulher, cuja identidade foi preservada, admitiu em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, ter sido a mentora de uma postagem falsa que afirmava a existência de imagens de adolescentes espancando o animal. A confissão surge em um momento de alta tensão, após o conteúdo gerar uma onda de hostilidade e tentativas de linchamento virtual contra os suspeitos.
A Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC) finalizou o inquérito nesta semana, esclarecendo que, embora o animal tenha sido vítima de violência, a narrativa propagada na internet não correspondia aos fatos apurados.
A confissão sobre a “Fake News” e o arrependimento
A responsável pela publicação admitiu que nunca assistiu a qualquer gravação do crime. Segundo seu relato, a postagem foi construída a partir do comentário de uma terceira pessoa, que alegava que um porteiro teria filmado a agressão, mas estaria sob coerção.
Ao testemunhar a proporção da revolta popular, a mulher demonstrou temor pelas consequências físicas contra os menores envolvidos. “Partiu de mim o post que contou [sobre o espancamento do Orelha]. Só que eu não imaginei que fosse repercutir tanto”, declarou. Ela completou afirmando o peso de sua responsabilidade: “Quando comecei a perceber que o post tinha viralizado, e começaram a falar em represálias às crianças, eu não acho certo isso (…) Pequei, porque não deveria ter acreditado nela”.
Conclusões do inquérito e perícia veterinária
A delegada Mardjoli Adorian Valcareggi, da Delegacia de Proteção Animal, enfatizou que a instituição manteve cautela técnica durante todo o processo. “Em nenhum momento, a polícia confirmou que o animal teria sido agredido até a morte”, pontuou a autoridade.
O laudo veterinário indicou que Orelha faleceu em decorrência de um trauma craniano evolutivo. O inchaço na cabeça do animal era compatível com um golpe desferido por um objeto contundente, possivelmente madeira ou vidro, ocorrendo o óbito dois dias após a agressão.
Contradições e detenção de adolescente no aeroporto
A investigação, que analisou mais de mil horas de filmagens, identificou um adolescente como principal responsável. O jovem viajou para os Estados Unidos no mesmo dia em que as apurações avançaram, sendo detido pela polícia ao retornar ao Brasil, em 29 de janeiro.
A PCSC apontou tentativas de ocultação de provas por parte de familiares, como um boné e um moletom utilizados no dia do incidente. Além disso, o celular do suspeito passa por perícia. “Como se tratava de um adolescente fora do país, ele poderia empreender fuga ou descartar elementos que comprovaram a autoria, como o celular”, informou a corporação em nota.
Posicionamento da defesa e do Ministério Público
A defesa do adolescente nega as acusações. Em nota enviada ao portal UOL, os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte classificaram as provas como “frágeis e inconsistentes”, alegando que a verdade dos fatos foi prejudicada pela condução do inquérito.
Por outro lado, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) avaliou que ainda existem pontos a serem esclarecidos na reconstrução cronológica dos fatos e solicitou novas diligências antes de oferecer a denúncia formal ao Judiciário.



