Investigação sobre Daniel Vorcaro envolve Banco Central, PF, MPF, TCU e STF, aponta fraude bilionária, culmina na liquidação da instituição e aciona o maior resgate da história do FGC
A apuração sobre o Banco Master transformou-se em um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. O inquérito, conduzido por Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público Federal, avançou para o Tribunal de Contas da União e para o Supremo Tribunal Federal, envolvendo ministros, autoridades do governo federal e influenciadores digitais.
No centro do caso está Daniel Vorcaro, controlador do banco, investigado por suspeitas de fraudes ao sistema financeiro. Antes de ser preso, o banqueiro construiu uma extensa rede de contatos no meio político, jurídico e empresarial, o que ampliou a repercussão do caso.
Rede de relações e contratos estratégicos
- Daniel Vorcaro
Dono do Master, assumiu o Master em 2019 e fez o banco crescer com estratégias consideradas agressivas. Foi preso em novembro e solto pela Justiça mediante uso de tornozeleira eletrônica.
- Ciro Nogueira
Presidente do PP, uma das principais pontes do banqueiro com o mundo político. Foi fundamental na negociação de venda do Master para o BRB (Banco de Brasília), que acabou vetada pelo BC.
- Paulo Henrique Costa
Ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), foi demitido do cargo em novembro no âmbito da Operação Compliance Zero. Antes, foi vice-presidente-executivo de Serviços Bancários de Varejo na Caixa Econômica Federal e atuou como membro do conselho de administração do braço de seguros da estatal.
- Ailton de Aquino
Diretor de Fiscalização do BC desde 2023, é também chefe do Departamento de Contabilidade, Orçamento e Execução Financeira da autoridade monetária. Participou de reuniões com Vorcaro durante a análise da venda do Master ao BRB, que acabou vetada.
- Gabriel Galípolo
Presidente do Banco Central desde 2025, afirmou que está à disposição do STF (Supremo Tribunal Federal) para prestar informações sobre o caso Master, após o ministro Dias Toffoli ter determinado oitivas sobre o caso. O presidente do BC foi alvo de ataques nas redes.
- Renato Dias Gomes
Diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC até o fim de 2025, área que recomendou o veto à compra do Master pelo BRB e subsidiou os achados relatados ao MPF. É um dos principais alvo dos influenciadores contratados para criticar o BC.
- Alexandre de Moraes
O jornal O Globo noticiou que o ministro Alexandre de Moraes (STF) procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para tratar da venda do banco para o BRB. O dono do Master, Daniel Vorcaro, contratou o escritório da mulher de Moraes para atuar na defesa do banco, por R$ 129 milhões.
- Dias Toffoli
O ministro do STF viajou em um jato particular ao Peru para ver a final da Libertadores ao lado de um dos advogados de um diretor do Master, dias antes de assumir a relatoria do caso no STF e pôr sob sigilo o caso.
- Paulo Gonet
O procurador-geral da República determinou o arquivamento de um pedido de investigação sobre a possível atuação de Moraes no caso do Master. Também solicitou ao STF a suspensão da acareação determinada por Toffoli.
- Jhonatan de Jesus
Relator do caso Master no TCU (Tribunal de Contas da União), o ministro determinou uma inspeção no BC para apurar possíveis falhas na supervisão pela autoridade monetária no caso Master, mas recuou após pressão pública.
- Vital do Rêgo
Presidente do TCU disse que uma unidade técnica do TCU analisará a documentação que está no BC antes de Jhonatan de Jesus. Dias depois, Rêgo afirmou que a “desliquidação” do Master não caberia ao TCU.
- Janaína Palazzo
Delegada responsável pelo caso, tomou os depoimentos da acareação. Se necessário, irá confrontar as versões por meio de uma acareação. Ela também foi autora do pedido inicial de prisão de Vorcaro.
Vorcaro aproximou-se de lideranças partidárias, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Antonio Rueda, presidente do União Brasil. O Banco Master também contratou o escritório de advocacia de familiares do ministro Alexandre de Moraes (STF), com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões, para atuar em demandas da instituição.
O banco ainda manteve contratos de consultoria com nomes de peso da economia e da política, entre eles Ricardo Lewandowski, no intervalo entre sua aposentadoria no STF e a posse no Ministério da Justiça, além dos ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola e Henrique Meirelles. Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, também prestou serviços e intermediou um encontro de Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Paralelamente, Vorcaro fortaleceu vínculos com empresários de forte trânsito político, como João Camargo (Esfera Brasil), João Doria (Lide) e Karim Miskulin (Grupo Voto). Eventos promovidos por esses grupos, nos últimos três anos, contaram com patrocínio do Banco Master.
Tentativa de acordo com o BRB
Mais recentemente, o ex-presidente Michel Temer (MDB) foi acionado para tentar destravar a negociação de venda do Master ao BRB (Banco de Brasília), operação que acabou barrada pelo Banco Central. Temer foi procurado pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e por dirigentes do banco estatal.
A origem do Banco Master
Vorcaro ingressou no setor bancário ao adquirir participação no Banco Máxima, em 2017. Dois anos depois, assumiu o controle da instituição, que passou a se chamar Banco Master em 2021.
Antes disso, atuou por oito anos no Grupo Multipar, empresa imobiliária da família, com sede em Belo Horizonte, onde exerceu os cargos de diretor financeiro e presidente.
A expansão do Master ocorreu por meio de uma política agressiva de captação, baseada na venda de CDBs com remuneração acima da média de mercado. Em agosto deste ano, o banco chegou a oferecer retorno equivalente a 120% do CDI.
A estratégia elevou o volume de recursos, mas também aumentou a exposição a riscos. Em março, diante das dificuldades, o banco aceitou negociar sua venda ao BRB. Em setembro, o Banco Central vetou a operação, citando risco de sucessão.
Quem é Daniel Vorcaro
O nome de Vorcaro ganhou projeção no mercado após a compra de 80% do complexo Fasano Itaim, em São Paulo, no fim de 2022. Em 2024, voltou ao noticiário ao adquirir o Banco Voiter e o Will Bank.
Sua imagem pública também foi associada a eventos de alto padrão, como encontros internacionais com ministros do STF e a festa de 15 anos da filha, com apresentação do DJ Alok.
No futebol, investiu R$ 300 milhões na SAF do Atlético-MG, garantindo participação de 27% no clube.
Investigação aponta fraude de R$ 12 bilhões
Segundo a Polícia Federal, a operação que resultou na prisão de Vorcaro investiga um esquema estimado em R$ 12 bilhões. O foco é a suposta emissão de títulos de crédito falsos por instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional.
Os investigadores afirmam que o negócio com o BRB teria sido utilizado para ocultar a criação de carteiras fictícias de crédito consignado. Esses ativos, compostos por tomadores inexistentes, inflaram artificialmente o balanço do Banco Master.
As carteiras teriam sido repassadas ao próprio banco e, posteriormente, revendidas ao BRB. A PF também apura se houve interferência política para viabilizar a transação.
Outra frente da investigação envolve a proposta de compra apresentada pela Fictor Holding Financeira, divulgada pouco antes da prisão de Vorcaro. Para os investigadores, a iniciativa pode ter sido uma manobra para facilitar a saída do banqueiro do país.
Também foi identificado que fundos da gestora Reag adquiriram ativos de baixo valor, como certificados de ações do extinto Besc, registrando-os por cifras milionárias para inflar os fundos. Segundo apuração, os recursos teriam sido desviados para intermediários ligados ao controlador do Master.
Liquidação decretada pelo Banco Central
Horas após a prisão de Vorcaro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A medida é aplicada quando a autoridade monetária considera a recuperação da instituição inviável, suspendendo suas atividades e retirando-a do sistema financeiro.
Em nota, o BC citou “grave crise de liquidez” e “violações relevantes às normas do Sistema Financeiro Nacional” como fundamentos da decisão.
Na véspera, a Fictor havia anunciado uma proposta de aporte de R$ 3 bilhões, em parceria com investidores dos Emirados Árabes, cujos nomes não foram divulgados. O mercado, no entanto, recebeu a iniciativa com desconfiança, interpretando-a como tentativa de impedir a liquidação.
Maior operação da história do FGC
A liquidação do Banco Master acionará o maior resgate já realizado pelo Fundo Garantidor de Créditos. O FGC deverá desembolsar cerca de R$ 41 bilhões para aproximadamente 1,6 milhão de clientes, respeitando o limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Até então, o maior pagamento havia sido o do Banco Bamerindus, em 1997, estimado hoje em cerca de R$ 20 bilhões. Apesar do impacto, especialistas afirmam que não há risco sistêmico, já que o FGC possui cerca de R$ 122 bilhões em caixa.
Grande parte dos recursos captados pelo Master veio da venda de CDBs, LCIs e letras financeiras, todos cobertos pelo fundo garantidor.
Questionamentos no TCU
No Tribunal de Contas da União, o ministro Jhonatan de Jesus é relator da apuração sobre a atuação do Banco Central na liquidação do Master. Ele chegou a determinar uma inspeção presencial na autarquia, mas recuou após pressão interna.
A decisão gerou desconforto entre ministros do TCU, que avaliaram que a iniciativa expôs o tribunal a um ambiente de disputa política em meio a um processo ainda em curso.
Ataques coordenados nas redes sociais
Ao menos 46 perfis em redes sociais passaram a atuar de forma coordenada contra o Banco Central e os investigadores do caso. O movimento, já observado durante a análise da venda ao BRB, intensificou-se com a judicialização do processo no STF e no TCU.
As publicações apresentam versões parciais dos fatos, com críticas à atuação do BC e à decisão de liquidar o banco.
Este portal deixa aberto o espaço para o Banco Master e Daniel Vorcaro se manifestarem, caso desejarem.



