Boletim Focus sinaliza inflação sob controle dentro do teto da meta, enquanto mercado aguarda retomada gradual dos investimentos e consumo moderado
A economia brasileira entra em 2026 atravessando um período de readequação estrutural. Após enfrentar um ciclo de juros restritivos e pressões inflacionárias persistentes no ano anterior, o cenário para os próximos doze meses desenha-se com maior previsibilidade, embora marcado pela cautela. Segundo as projeções mais recentes, o país deve experimentar uma desaceleração nos preços e uma flexibilização monetária lenta, acompanhadas por um avanço econômico em ritmo cadenciado.
IPCA e o desafio da meta inflacionária
De acordo com o primeiro Boletim Focus do ano, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (5), a expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de um encerramento próximo a 4%. Embora o percentual supere o centro da meta de 3% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional, ele permanece confortavelmente dentro do intervalo de tolerância (até 4,5%).
Este movimento consolida o processo de desinflação iniciado em 2025. Contudo, analistas alertam que o recuo dos preços não é uniforme: o setor de serviços e os produtos alimentícios continuam apresentando resistência, exigindo uma postura vigilante da autoridade monetária para evitar repiques inflacionários.
A trajetória da Selic e o custo do crédito
A condução da política monetária será um dos pilares centrais de 2026. A previsão é que a taxa básica de juros, a Selic, mantenha sua trajetória descendente, saindo do patamar atual para encerrar o ano em 12,25%. Apesar da redução, o juro real ainda deve permanecer em níveis elevados, refletindo a prudência do Banco Central diante das incertezas fiscais e do cenário externo.
Para o consumidor e para o setor produtivo, isso significa que, embora haja um alívio gradual no custo do dinheiro, o acesso ao crédito para financiamentos e expansão empresarial continuará oneroso, especialmente no primeiro semestre. A queda lenta dos juros é vista como uma estratégia para ancorar as expectativas de longo prazo sem desestabilizar a moeda.
PIB e a resiliência do mercado de trabalho
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve apresentar uma expansão de 1,8% em 2026, repetindo o desempenho moderado do último biênio. Esse crescimento é reflexo de um ambiente onde os investimentos privados ainda são contidos pelo alto custo de capital e o consumo das famílias é balizado pelo endividamento.
Por outro lado, o mercado de trabalho atua como um amortecedor para a atividade econômica. A manutenção de taxas de desemprego historicamente baixas garante um nível de massa salarial capaz de sustentar o consumo doméstico básico. “A expectativa é de manutenção do nível de ocupação, ainda que sem avanços expressivos”, indicando que a estabilidade do emprego será o principal suporte para a economia diante de um cenário de crescimento mais tímido.
Estabilidade cambial e cenário externo
No mercado de câmbio, as projeções indicam um dólar operando em uma faixa estreita, entre R$ 5,40 e R$ 5,50. Essa relativa calmaria na cotação da moeda americana depende da manutenção da responsabilidade fiscal interna e da condução dos juros em economias avançadas, como os Estados Unidos. Incertezas geopolíticas continuam no radar, mas a atratividade dos juros brasileiros ainda atua como um fator de proteção para o Real, evitando fugas de capital desordenadas e choques nos preços de importados.



