Parceria mira transição energética e busca reduzir dependência do domínio chinês
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi formalizaram neste sábado, em Nova Déli, um acordo de cooperação voltado à exploração e ao desenvolvimento de minerais críticos e terras raras — insumos considerados estratégicos para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.
“Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, afirmou o brasileiro. “Nossos países estão assegurando o devido espaço para essa tecnologia na agenda climática e energética global.”
A declaração foi feita durante visita de Estado do chefe do Executivo brasileiro à Índia, onde também participa da Cúpula de Impacto sobre Inteligência Artificial.
Potências em reservas, mas com baixa capacidade industrial
A aproximação ocorre em um momento em que Brasil e Índia figuram entre as maiores reservas mundiais desses minérios — ficando atrás apenas da China —, mas ainda enfrentam limitações estruturais na cadeia produtiva, sobretudo nas etapas de beneficiamento e processamento.
No caso brasileiro, a defasagem industrial é ainda mais acentuada do que a observada no país asiático.
A cooperação bilateral é vista como um movimento de longo alcance, com potencial para influenciar setores como geração de energia renovável, veículos elétricos, indústria aeronáutica, defesa e produção de semicondutores.
Domínio chinês e pressão geopolítica
O acordo também reflete a crescente disputa global por controle desses recursos. A China concentra cerca de 70% das reservas conhecidas e aproximadamente 90% da capacidade mundial de processamento — etapa tecnológica considerada a mais complexa e estratégica da cadeia.
O tema ganhou centralidade nas tensões comerciais após Pequim ampliar, em outubro do ano passado, os mecanismos de controle sobre a exportação de produtos que utilizam terras raras de origem chinesa.
A medida foi interpretada como resposta às tarifas impostas pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e vigorou por cerca de um mês, tornando-se um dos fatores que impulsionaram o encontro entre o líder americano e o presidente chinês, Xi Jinping, no mesmo período.
Na prática, a decisão passou a exigir autorização do governo chinês para a exportação de qualquer produto que contivesse esses minerais, independentemente do país onde tivesse sido fabricado.
Movimento por autonomia tecnológica
Ao firmarem a parceria, Brasil e Índia sinalizam uma tentativa de reduzir vulnerabilidades externas em cadeias consideradas essenciais para a economia de baixo carbono e para a segurança tecnológica nas próximas décadas.
O entendimento é interpretado como um passo para reposicionar ambos os países em um mercado hoje altamente concentrado — e cada vez mais determinante para o equilíbrio de poder global.



