Grupo ligado a Bolsonaro precisaria conquistar mais de 70% das vagas em disputa para viabilizar ofensiva contra Supremo
O bolsonarismo poderá alcançar maioria no Senado Federal nas eleições de 2026, caso repita o desempenho expressivo de quatro anos antes. No entanto, para atingir o número necessário de cadeiras que permita deflagrar um processo de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como deseja o grupo liderado por Jair Bolsonaro (PL), será preciso uma vitória sem precedentes.
Disputa pelo controle do Senado mobiliza governo e oposição
A disputa pelas 54 cadeiras que estarão em jogo no Senado em 2026 mobiliza tanto a base bolsonarista quanto aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ambos os campos reconhecem o papel estratégico da Casa na governabilidade e na contenção de pautas adversárias.
Ao contrário dos demais cargos legislativos, o mandato de senador é de oito anos. Em 2022, apenas um terço das cadeiras foi renovado. Mesmo derrotado na corrida presidencial, Bolsonaro viu sua base conquistar 56% das 27 vagas em disputa naquele pleito.
Figuras de peso do bolsonarismo garantiram assento no Senado, entre elas Damares Alves (Republicanos-DF), Marcos Pontes (PL-SP), Rogério Marinho (PL-RN), Jorge Seif (PL-SC), Sergio Moro (União Brasil-PR) e o ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
Cenário atual dá vantagem relativa a Lula
Apesar da vitória bolsonarista em 2022 no Senado, a composição da Casa ainda garante certa vantagem ao governo. Com a maioria dos senadores eleitos em 2018 ainda no exercício do mandato, estima-se que a oposição mais aguerrida ao Planalto ocupe hoje cerca de 30 das 81 cadeiras.
Em 2026, dois terços do Senado — um total de 54 vagas — estarão em disputa, o que representa uma oportunidade significativa para a oposição ampliar sua influência. Mas o desafio para alcançar o patamar necessário à aprovação de medidas constitucionais (49 votos) ou do impeachment de ministros do STF (54 votos) é considerável.
Vitória bolsonarista depende de desempenho inédito
Para garantir maioria absoluta, o grupo bolsonarista teria que conquistar pelo menos 30 das 54 cadeiras em disputa. Para alcançar os 54 votos exigidos para um impeachment no STF, seria necessário eleger 39 novos senadores — um aproveitamento superior a 70%.
Esse cenário exigiria vitórias em todas as unidades da federação, incluindo duas cadeiras em 12 estados, uma meta logisticamente ambiciosa e politicamente difícil de alcançar.
Estados do Norte e Nordeste apresentam obstáculos
O desempenho regional mostra que o bolsonarismo enfrentará obstáculos significativos. No Norte e no Nordeste, aliados do ex-presidente encontram dificuldades para se consolidar como favoritos.
Na Bahia, nomes ligados ao presidente Lula dominam as articulações, com figuras como Jaques Wagner (PT), Rui Costa (PT) e Angelo Coronel (PSD) liderando as intenções de voto. João Roma (PL), ex-ministro de Bolsonaro, aparece em desvantagem.
Situação semelhante é observada no Maranhão, Rio Grande do Norte e Pará, onde grupos políticos alinhados ao Palácio do Planalto têm vantagem expressiva.
Aliados de governadores fortes dificultam avanço bolsonarista
Mesmo em estados onde Bolsonaro teve bom desempenho nas urnas presidenciais, como Goiás, a consolidação de candidaturas bolsonaristas é desafiada por lideranças locais.
Em Goiás, o grupo político do governador Ronaldo Caiado (União Brasil) tem nomes fortes para a disputa ao Senado, como a primeira-dama Gracinha Caiado e o ex-prefeito Gustavo Mendanha (MDB), ambos com mais capilaridade que o bolsonarista Gustavo Gayer (PL).
Minas Gerais, por sua vez, segue indefinida, com Bolsonaro ainda sem um nome de peso. Em São Paulo, há uma tentativa de formar uma chapa integralmente ligada ao PL, com Eduardo Bolsonaro e Guilherme Derrite (PP). Já no Rio de Janeiro, a aposta segue sendo a reeleição de Flávio Bolsonaro.
DF e outros estados devem escapar da pauta do impeachment
Mesmo onde há nomes fortes do bolsonarismo, o discurso do impeachment de ministros do STF pode não encontrar ressonância. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro é cotada como candidata, mas enfrentaria concorrência do governador Ibaneis Rocha (MDB), que mantém boas relações com o Judiciário.
Ibaneis já se declarou contrário à ideia de afastamento de ministros do Supremo, classificando-a como sem respaldo, diante das condições atuais. “Tem que ser algo muito sério e, com o que tem hoje, não teria o meu apoio”, afirmou em entrevista concedida em março.
Conclusão: Senado de 2026 será decisivo, mas meta bolsonarista é improvável
A possibilidade de o bolsonarismo dominar o Senado e avançar com uma agenda de enfrentamento ao STF existe, mas esbarra em limites eleitorais, regionais e políticos. Para além da conquista de cadeiras, será necessário alinhar interesses divergentes e conquistar apoios improváveis. A eleição de 2026, portanto, promete ser um divisor de águas, mas dificilmente entregará ao ex-presidente a correlação de forças que ele precisa para sua principal ambição institucional.