Senador nega irregularidade e destaca importância social do projeto financiado
Cerca de R$ 15 milhões em emendas parlamentares destinadas pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), foram direcionados ao programa Mais Visão, que é executado pela ONG Capuchinhos, ligada a um dos seus principais assessores.
O programa, criado em 2019 pelo senador e administrado pelo Governo do Amapá, tornou-se um dos principais destaques durante sua campanha à reeleição em 2022.
A ONG responsável pela execução do Mais Visão, o Centro de Promoção Humana Frei Daniel de Samarate, conhecido como Capuchinhos, é coordenada há pelo menos oito anos por Maria Ivanete Campos Mendes. Ela é mãe de Pedro Jorge Delgado, apresentado como filho de Jardel Adailton Souza Nunes, que atua como chefe de gabinete no escritório político do senador Alcolumbre no Amapá desde 2019, com salário mensal informado de R$ 29,4 mil.
Questionado sobre o possível conflito de interesse, Alcolumbre negou irregularidades, demonstrando surpresa com as questões levantadas e ressaltando seu orgulho em ter contribuído para a viabilização financeira do projeto. Jardel Nunes não se pronunciou.
Em redes sociais, Jardel costuma exibir publicações sobre as ações políticas de Alcolumbre e iniciativas desenvolvidas pela Capuchinhos. Também faz frequentes referências ao filho, Pedro Jorge. Em setembro de 2024, ele publicou uma mensagem comemorativa, destacando seu afeto paterno pelo jovem.
Jardel já atuou como secretário de Saúde do Amapá em 2014 e enfrenta, desde 2021, um processo judicial federal por suposta improbidade administrativa. O Ministério Público Federal (MPF) o acusa de ter autorizado pagamentos indevidos, gerando um prejuízo estimado em R$ 3,8 milhões aos cofres públicos.
O Mais Visão, que oferece atendimento oftalmológico à população do estado, teve sua execução suspensa temporariamente em 2023 após episódios graves, quando mais de cem pacientes enfrentaram complicações pós-operatórias decorrentes de infecções em mutirões cirúrgicos. Atualmente, o Ministério Público Estadual acompanha de perto a execução do programa.
Maria Ivanete Campos Mendes, coordenadora administrativa da Capuchinhos, é responsável direta pela gestão da ONG, que, até agosto de 2023, estava registrada principalmente como uma entidade religiosa ou filosófica. Posteriormente, a organização alterou seu registro para atividade médica ambulatorial, incluindo serviços cirúrgicos.
Recentemente, em outubro de 2024, o MPF abriu um inquérito civil para apurar supostas irregularidades na contratação da Capuchinhos pelo governo estadual e a subsequente subcontratação de uma empresa privada, a Saúde Link. Os procuradores investigam suspeitas de improbidade administrativa relacionadas ao uso de recursos provenientes de emendas parlamentares.
Senador descarta conflito de interesses e exalta resultados sociais do projeto
Em nota oficial, Alcolumbre afirmou que não há conflito ético em virtude da antiga relação pessoal entre seu assessor e a coordenadora da ONG. Ele ressaltou que o Mais Visão, administrado pelo governo estadual, já beneficiou milhares de pessoas, demonstrando o mérito social e o compromisso de sua atuação parlamentar.
A Secretaria de Comunicação do Governo do Amapá alegou que a ONG foi selecionada exclusivamente pela qualidade dos serviços prestados, sem interferências externas ou influências políticas.
Já a Capuchinhos explicou que contratos desse tipo não exigem licitação formal e destacou que todas as atividades contratadas foram efetivamente realizadas, negando qualquer irregularidade ou terceirização indevida. Maria Ivanete afirmou ainda que sua atuação ocorre dentro dos limites legais e institucionais, negando qualquer vínculo com o gabinete do senador ou participação em decisões que levaram à escolha da entidade para execução do projeto.
Procurado repetidamente pela reportagem, Jardel Nunes não respondeu aos contatos realizados.
( Com Folhapress)