Era uma terça-feira de carnaval.
Lá fora, o mundo talvez dançasse.
Mas ali, depois do café, um homem permanecia sentado na poltrona.
A casa em silêncio.
O corpo quieto.
E a memória acordada.
Não era solidão.
Era tempo.
O tipo de visita que chega sem fazer barulho e se instala devagar.
Ele nasceu na roça.
E quem nasce na roça não nasce apenas: brota.
Veio ao mundo entre curral, cheiro de leite fresco, chão batido e o canto do galo abrindo as madrugadas.
Antes de aprender a sonhar, já sabia trabalhar.
Aprendeu cedo que a vida exige presença.
E que caráter se constrói no detalhe.
Viu o pai ajudar a erguer uma escola.
Caminhou até ela levando um litro de leite para o professor.
Não era muito.
Mas era tudo.
Ali não se formava apenas um aluno.
Formava-se um homem.
Depois veio a juventude inquieta.
Os debates.
O movimento estudantil.
O país em transformação.
Ele acreditava.
Acreditava mesmo.
Havia brilho nos olhos e coragem nas escolhas.
Queria participar do mundo: não apenas assisti-lo.
Trabalhou cedo.
Casou-se.
Amou.
Construiu família.
Criou filhos.
Três vidas que redesenharam seu futuro.
Três razões permanentes para continuar.
Formou-se. Trabalhou com disciplina. Assumiu responsabilidades.
Enterrou irmãos. Em cada despedida, um pedaço da infância se recolheu em silêncio.
A vida dá.
A vida tira.
E ensina no meio.
Teve sítios.
Teve terras.
Teve projetos que floresceram.
Alguns segurou com firmeza.
Outros o tempo levou.
Às vezes, sentado nessa mesma poltrona, ele se pergunta se poderia ter decidido diferente.
Mas o que o visita nessa manhã não é arrependimento.
É saudade.
Não exatamente da terra.
Mas das tardes.
Da família reunida.
Da conversa sem pressa.
Do silêncio cheio de vida.
E do canto dos pássaros atravessando o ar como se abençoassem aquele instante.
Aquilo era plenitude.
E ele só percebeu totalmente quando virou lembrança.
Aos 50 anos, sentia-se no centro do mundo.
Forte.
Produtivo.
Necessário.
O futuro parecia largo.
As chácaras não eram apenas propriedades.
Eram extensão da própria vitalidade.
Sinais de que estava construindo algo concreto.
Hoje, aos 81, o horizonte mudou.
O passado ocupa mais espaço que o futuro.
E isso não é derrota.
É maturidade do ciclo.
O que dói levemente não é a idade.
É saber que certos cenários não se repetem.
Que algumas fases não voltam.
Que determinadas paisagens existem uma única vez.
Mas há algo que o tempo não leva.
Transforma.
O homem da poltrona não é menor que o homem da chácara.
É a soma dele.
A força virou lucidez.
A pressa virou discernimento.
A construção virou contemplação.
Talvez tenha perdido terras.
Mas ganhou profundidade.
Perdeu fases.
Mas acumulou significado.
Essa melancolia de terça-feira não é amargura.
É ternura amadurecida.
É gratidão emocionada por ter vivido dias tão verdadeiros que ainda ecoam por dentro.
O canto dos pássaros continua.
Agora mora na memória.
A família reunida ainda existe.
Os filhos seguem.
Os netos crescem.
O amor permanece: menos ruidoso, mais essencial.
E então vem a revelação simples.
Sem teatro.
Sem exagero.
Esse homem não é personagem.
Sou eu. Wilton.
O menino que levava leite para a escola.
O jovem que acreditava.
O marido de Itacira.
O pai de Nágila, Laiza e Rander.
O avô que observa mais do que fala.
O homem que já teve sítios: e que hoje cultiva algo mais raro:
Consciência.
A juventude passou.
As terras passaram.
Alguns ciclos se fecharam.
Mas o essencial ficou.
Porque o verdadeiro patrimônio nunca foi a extensão da terra.
Foi a extensão do caráter.
Foi a família construída.
Foi o amor que atravessou as estações.
E ele continua aqui.
Com 81 anos.
Sereno.
Sensível.
Inteiro.
Vivo.




