Escola que exaltou o presidente na Sapucaí e criticou Bolsonaro é rebaixada um ano após chegar ao Grupo Especial
A Acadêmicos de Niterói está fora do Grupo Especial do Carnaval carioca. Um ano depois de conquistar o acesso à elite, a agremiação foi rebaixada nesta quarta-feira (18), ao somar 264,6 pontos na apuração realizada na Marquês de Sapucaí. Com o resultado, a escola retorna ao Grupo Ouro.
O desfile, apresentado no domingo (15), teve como eixo central a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A narrativa também incluiu críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo ao longo da avenida.
Notas baixas em sete quesitos
Na avaliação dos jurados, a escola recebeu as menores pontuações em sete dos nove quesitos: comissão de frente, bateria, mestre-sala e porta-bandeira, alegorias e adereços, harmonia, fantasia e enredo. As únicas notas máximas vieram em samba-enredo.
Enquanto a Acadêmicos amargava a queda, outra agremiação da cidade comemorava. A Unidos do Viradouro sagrou-se campeã ao levar à avenida uma homenagem ao mestre de bateria Ciça, que soma 15 anos de trajetória na escola.
Presença presidencial e controvérsia
O desfile contou com a presença de Lula em um camarote da Sapucaí, de onde acenou ao público nas arquibancadas. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, acompanhou a apresentação, mas surpreendeu ao não desfilar no último carro alegórico, como era esperado. Ela foi substituída pela cantora Fafá de Belém.
O enredo gerou debate diante do risco de ser interpretado como propaganda política antecipada em ano pré-eleitoral — Lula deve disputar a reeleição em 2026.
Na segunda-feira (16), a escola divulgou nota afirmando ter sido alvo de perseguição política. Segundo a agremiação, “mesmo pressionada, não se curvou”. O texto menciona “ataques de setores conservadores e, de forma ainda mais grave, de gestores do Carnaval carioca”.
A Acadêmicos declarou ainda que “houve tentativa de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar”.
Reações institucionais
Após o desfile, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro divulgou nota expressando preocupação com o uso de símbolos da fé cristã e da família em manifestações culturais consideradas “ofensivas”. Embora o texto não cite nominalmente a escola, a manifestação foi interpretada como resposta à apresentação.
“Reconhecemos a cultura popular como expressão da identidade brasileira, espaço de criatividade, encontro e alegria. Ao mesmo tempo, é preciso que tais manifestações respeitem convicções religiosas profundas e valores que estruturam a vida social e são invioláveis para as pessoas desta cidade”, afirmou a arquidiocese.
A OAB-RJ também se posicionou. Em nota, a entidade repudiou o que classificou como “episódio de intolerância religiosa na Marquês de Sapucaí”.
Defesa da escola
Durante a apuração, integrantes da Acadêmicos contestaram o resultado. O destaque de chão Fabiano Leitão criticou as notas atribuídas pelos jurados.
“Eu acho que as notas não condizem com a apresentação que foi feita. A gente tirou dois 10 em samba-enredo, que é lindo e conta a história genuína do Brasil, porque não se pode contar a história do nosso país sem falar do presidente Lula”, disse.
“Como que a gente vai apagar da história esse presidente que tirou o Brasil do mapa da fome? A apresentação cumpriu a sua tarefa. A escola foi corajosa, foi guerreira e cumpriu sua tarefa de contar a história. Acho que daqui a 50 anos talvez as pessoas nem lembrem dos outros desfiles, mas desse vão lembrar com certeza. Isso não desanima a gente. É levantar a cabeça e saber que entramos para a história”, completou.
A queda encerra um ciclo marcado por forte polarização política e amplia o debate sobre os limites entre liberdade artística, religião e disputa eleitoral no principal palco do Carnaval brasileiro.



